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Ano 2004

Fratermidade e a Água

Água, Fonte de Vida
 
Cartaz
 
 
 

Campanha da Fraternidade 2004
Artigo de D. Demétrio sobre a Campanha
da Fraternidade deste ano

ÁGUA: ALERTA MÁXIMO!

Os dias de carnaval advertem que a quaresma está à vista. Como marinheiros atentos ao destino da nave, nosso olhar não se detém nas imediações, mas se volta para o farol mais distante, que aponta os rumos a seguir. Bem entendida, esta é a função do carnaval: alertar para o momento das manobras importantes. Se imbicarmos certo pela quaresma, o caminho do porto estará assegurado.

Com a quaresma, chega a Campanha da Fraternidade. Desta vez, ela nos apresenta um tema de evidente interesse para todos. “Água, fonte de vida”. Nada mais oportuno do que trazer para nossa reflexão a questão da água, com todas as implicações que ela traz consigo.

Está na hora de dar-nos conta que a água faz a diferença entre os planetas. No momento em que se busca, ansiosamente, comprovar resquícios de água em marte ou em outras paragens do sistema solar, salta aos olhos a presença da água sobre a face da terra, e sua decisiva importância para as condições de vida em nosso planeta.

Bem vinda, portanto, a quaresma, com sua campanha sobre a água.

As Campanhas de Fraternidade já têm a tradição de criar uma plataforma comum entre Igreja e Sociedade, um ponto de encontro entre fé e vida, uma convergência de causas entre espiritualidade e cidadania, entre teologia e ciência, entre oração e política, entre mística e ação social.

Mas neste ano a coincidência de interesses não podia ser mais completa e mais adequada. A questão da água, além de abrangente e fecunda, se tornou urgente e dramática. O novo milênio detecta cedo que a água será sua preocupação maior e sua angústia mais premente. O planeta está pedindo água!

A ciência nos diz que durante quinhentos milhões de anos a situação das águas na terra permaneceu estável, com seu ciclo constante de renovação. Só ultimamente começaram a perder sua capacidade de regeneração, pelo alto grau de poluição e pelo drástico aumento do seu consumo. Daí a necessidade de uma tempestiva mudança em nossos hábitos e de uma guinada em nossa mentalidade.

Fomos habituados à naturalidade da água. Por ser incumbência da natureza, pensamos que podíamos nos eximir do seu cuidado. Fomos habituados ao descaso e à irresponsabilidade para com a situação da água.

Finalmente, começamos a nos dar conta que a água é dom precioso, escasso, limitado, e sujeito aos desmandos da ação humana irresponsável. Basta constatar o alto grau de poluição dos rios e a contaminação das nascentes.

Na questão da água, que a Campanha da Fraternidade levanta, uma advertência se torna mais urgente: por sua estreita ligação com a vida, a água precisa ser resguardada como patrimônio comum, como direito de todos, como bem social que não pode ser apropriado para exploração mercantilista. A água não pode ser privatizada.

A pior contaminação da água seria confiá-la à volúpia do lucro. E’ urgente subtraí-la aos ditames do liberalismo. Pois ele seria capaz de levar ao pé da letra a máxima que inspira seu ideário econômico: “Fiat questus et pereat mundus” – “haja lucro, e pereça o mundo”. A crise da água se constitui na advertência mais real da fatalidade desta postura. A exploração predatória dos recursos naturais pode levar este mundo à sua falência como sistema de vida.

O poder público não pode nunca se eximir de suas responsabilidades com a água. Ele precisa garantir sua preservação para disponibilizá-la, em primeiro lugar, para as necessidades vitais da população.

A Campanha da Fraternidade nos convoca, portanto, para cerrar fileiras em defesa da água. Assim fazendo, nos colocamos na verdade em defesa da vida.

D. Demétrio Valentini
(Outros artigos de D. Demétrio: www.diocesedejales.org.br )