"Tu dirás que é a Morte: eu direi que
é a vida (M. de Assis).
I. A SEGUNDA IDADE
O tempo da secunda idade na Vida Religiosa é longo
e abrangente, mesmo se o colocarmos nos seus limites mais
estreitos, dos 40 aos 60 anos. Seriam vinte anos de existência
adulta, normalmente de plena atividade. Mas longo ainda ele
será, se, com realismo, o ampliarmos dos 35 até
os 65 anos.
Trata-se do percurso do final da juventude para o início
da terceira idade. Essa passagem é sua unidade básica,
a que melhor define tal período da existência.
Mas a maturidade de vida não transcorre toda por igual,
com as mesmas características. Será mais exato
subdividi-1a em duas grandes etapas: uma primeira, que é
a da entrada na plena adultez, na plenitude de vida, e outra,
que se qualifica pela caminhada progressiva para a terceira
idade.
Vejamos um pouco melhor essas duas etapas da secunda idade.
1. PLENITUDE ADULTA
0 portal de entrada para a maturidade está lá
pelos 35 anos. 0 sujeito então adquire muito rapidamente
uma nova consciência de si: "Não sou mais
um jovem. Sou um adulto". Os olhos não se voltam
tão constantemente para o futuro como acontecia até
adora. Eles se fixam cada vez mais na tarefa de viver o presente.
1.1. Consolidação e experiência
Este adulto tem consigo a bagagem adquirida nos anos juvenis.
Ele é dono de uma consolidação de vida
(engajamento perpétuo na VR, com definição
de suas atividades profissionais e pastorais) e de uma experiência
fundamental (segurança do não-noviço,
vivência comunitária). Ele possui a autonomia
de quem se sente capaz de ir adiante por si mesmo e a esperança
de vida realizadora e feliz. ele já traz um pacote
de compromissos assumidos, os quais orientam, limitam e direcionaram
seus passos.
A experiência recente da juventude ainda é para
ele um marco referencial, embora venha acompanhada da consciência
progressiva de que se trata de uma realidade já ultrapassada.
Estão preenchidos os deveres centrais do desenvolvimento
físico, psicológico e social. Não é
mais o sol da manhã juvenil, mas o astro do meio-dia
que ilumina a vida. 0 que conta é o presente.
É o tempo da consolidação, do firmar-se
nos espaços conquistados, tanto sociais como profissionais.
É hora de dar expansão à criatividade,
produzir, assumir as responsabilidades. 0 sujeito se sente
em plena vida, dono de suas forças, aplicando-as no
cumprimento da missão. Tem-se a impressão, ilusória
impressão, de que daí para a frente será
sempre assim.
2. A VIDA PASSA
A transição do primeiro para o segundo momento
da segunda idade tem lugar naquele instante em que o sujeito
assume sua condição de humano: "A vida
passa, eu estou mudando'. Com realismo ele nota que se acabaram
os sonhos. Voltando-se cada vez mais para si, pergunta-se
a respeito do sentido da vida.
2.1. Trocar força por sabedoria
É lá pelos 50 anos, pouco mais pouco menos,
que acontece uma mudança interior: cresce a consciência
de que o tempo está indo embora, começam a se
fazer fortes os indícios do desgaste corporal, percebe-se
que nem tudo o que estava sendo planejado para a vida poderá
ser executado. Com mais frequência, a doença,
a desilusão e o fracasso estão presentes. Agora
os olhos interiores fixam-se na velhice que se aproxima. Mas
ela ainda não checou de todo.
Ainda é tempo de manter o desempenho, de continuar
participante, de carregar o peso dos compromissos. Agora todavia
é necessário compensar as perdas, trocar a agilidade
e a esbeltez pela experiência e pela prudência,
não mais querer resolver tudo pela força, mas
pela sabedoria. E é preciso saber preparar-se para
a terceira idade.
Paul Chauchard lembra: "O estado adulto não é
um estado de equilíbrio estático, contrário
às leis biológicas". É um equilíbrio
dinâmico, luta incessante contra o desequilíbrio.
"É também a luta contra o desgaste natural,
efeito do passar do tempo, e contra o desgaste produzido pela
vida vivida".
É freqüente falar da segunda idade da Vida Religiosa
centrando toda a atenção nos aspectos de perda,
de limites, de doença, de sofrimento, de desequilíbrio
e de fracasso. Porém cabem aqui duas considerações:
* primeiro, doença e fracasso são possíveis
companheiros de toda a vida. Podem estar presentes a qualquer
momento, não são privilégios do religioso
e da religiosa da secunda idade;
* segundo, como vimos acima, a vida adulta é também
o penado daquilo que E. Erikson denominou "generatividade",
do gerar vida, do ser útil, do cuidar. Veja o que Ir.
Teresinha Mendonça Del'Acqua escreve neste mesmo livro
a respeito dessa tarefa do adulto.
Achei importante fazer essas observações. Minha
missão neste texto é escrever sobre o lidar
com as doenças e limitações na segunda
idade da Vida Religiosa. Limitação e doença,
é verdade, são problemas que, se estão
presentes a qualquer momento, agora, neste período
quase sempre não deixam de comparecer. Os anos vividos
começam a pesar, o desgaste é cada vez maior...
Entretanto, seria incorreto encará-las como realidades
exclusivas e caracterizadoras únicas ou mais fortes
de tal momento. Imaginar, ou pior, viver a segunda idade da
Vida Religiosa como um período da existência
maiormente determinado pelas perdas, sofrimentos, doença
e envelhecimento, seria uma visão extremamente falha
pelo reducionismo ao negativo.
Pretendo fazer aqui uma abordagem preventiva e de convivência
saudável com o inevitável desgaste da idade,
do vivido e do sofrido. Não vou limitar-me ao biológico
e corporal, do organismo que começa . a passagem, a
travessia pelas veredas da maturidade rumo à terceira
idade que se prenuncia.
0 programa de cada um não pode ser apenas o "prevenir
é melhor que remediar", mas a busca do saber saborear
a fruta madura, o saber viver saudavelmente o momento da adultez.
A perspectiva realista não se fixa unicamente, nem
mesmo principalmente, nas perdas, seja qual for a etapa da
vida.
Nós, religiosos, devemos aprender a desenvolver a melhor
convivência com a secunda idade de nossa vida. Ela é
uma realidade muito presente em nossas comunidades. É
grande a proporção de religiosos e religiosas
que a estão vivendo. Pessoas e comunidades podem e
devem desenvolver estratégias de melhor aproveitamento
possível das riquezas de vida que estão aí
nessa etapa da existência.
11. ENVELHECIMENTO, UM PROCESSO
A segunda idade, mesmo em seus aspectos de envelhecimento
que se inicia, não é o término da robustez.
Trata-se geralmente de um primeiro rebate, do caminhar do
pleno vigor ao começo do declínio. É
uma decadência que já começou há
muito... mas que antes era pouco ou nada perceptível.
0 processo de envelhecimento pouco a pouco se faz mais notório.
Mas ele não é uma doença. É simplesmente
parte do programa genético já inscrito nas primeiras
células formadoras do novo organismo ainda no útero
materno. Mesmo na infância, adolescência e juventude,
quando estamos em pleno desenvolvimento, o desgaste, ainda
imperceptível, já começou sua tarefa.
0 envelhecimento pode transcorrer de maneira muito saudável.
Mas é freqüente que venha acompanhado de doenças,
pois a ferrugem do tempo faz o organismo mais vulnerável.
1. PRIMEIROS REBATES
São indícios que se apresentam nessa fase da
existência, prenúncios da velhice que vem vindo,
as primeiras sombras do entardecer. Começam então
as alterações do equilíbrio orgânico,
e a recuperação mais lenta dos desgastes. Há
diminuição do ritmo metabólico, alteração
do peso, redistribuição e leve diminuição
muscular, maior acúmulo de gorduras principalmente
no abdome. menor capacidade respiratória e cardíaca.
Como essas coisas não aparecem prontas e definitivas,
mas acontecem em ritmo quase imperceptível de início,
nem sempre as pessoas se dão conta logo. Porém,
um belo dia, a surpresa: um olhar no espelho, um fio de cabelo
branco, uma ruga, uma dor muscular, a balança que acusa,
a barriga que se cresce... seja lá o que for, e "pronto,
estou envelhecendo!"
2. 0 EMOCIONAL
0 impacto maior é de ordem emocional. A auto-imagem
sofre uma queda. principalmente nestes nossos tempos em que
a juventude é glorificada por todos os meios.
Aqueles e aquelas que colocaram sua valorização
principalmente nos traços e características
juvenis agora se sentem ameaçados até no sentido
da vida. Isso acontece com relativa freqüência
entre os religiosos e as religiosas, pois, pelo fato de não
terem filhos, não têm também um ponto
de referência para seu próprio amadurecimento
nos filhos que se desenvolvem e se fazem adolescentes.
Outros ainda, ao trabalharem pastoralmente com adolescentes
e jovens, cultivam por todos os meios características
que os assemelham a eles. Vestem-se como se fossem adolescentes
sua fala é recheada de, gírias, apresentam-se
e agem como se estivessem ainda lá pelos 18 anos. Aquilo
que, no início, era até interessante, passa
a tomar um colorido cada vez mais ridículo, à
medida que os anos avançam.
Para alguns, os primeiros anúncios da plena maturação
e os prenúncios da chegada progressiva da terceira
idade ressoam com tanto desencanto e até com a sensação
de que a vida está pelo fim, a ponto de não
, serem capazes de entender que atingem na segunda idade um
patamar mais alto de existência.
Aí, sem dúvida, não é mais a juventude
com seu viço que dá o tom. Convém, entretanto,
dar-se conta de que não é ainda a hora da fragilidade
e nem mesmo da perda de vitalidade. É agora que a plena
energia adulta pode somar-se com as riquezas da experiência
e da sabedoria que começa. É então que
a vida não mais é vivida em função
do futuro, mas do presente. Chega a ocasião de abandonar
os sonhos idealistas e os projetos adolescentes, a hora de
escolher entre tantas possibilidades quais as mais viáveis
e as que merecem preferência. É aí que
a onipotência do desejo vai ser denotada pela implacável
lei da realidade. Os prenúncios do envelhecimento alertam
para uma verdade básica: o tempo passa! É preciso
aproveitá-lo adora!
III. SAÚDE OU DOENÇA
Mesmo as pessoas mais saudáveis experimentam na segunda
idade os primeiros rebates da diminuição da
saúde plena. 0 organismo já não é
o mesmo da juventude. 0 passar do tempo vai acentuando as
fragilidades, diminuindo as resistências, corroendo
as funções orgânicas. AS dores, enfermidades
e enxaquecas de vários tipos tornam-se presenças
mais e mais frequentes. Até a capacidade de trabalho
será progressivamente afetada. Cada indivíduo
tem uma história própria de doenças e
fragilidades, de dores e sofrimentos, uma história
marcada pela constituição pessoal, pelos cuidados
e pelas circunstâncias.
Faz parte necessária do programa do aprendizado de
vida da segunda idade o desenvolvimento do como cuidar-se
na doença e na dor. Isso vai além dos cuidados
físicos, dos remédios e semelhantes. Há
todo um conjunto de reações emocionais diante
da presença do sofrimento. Será necessário
o desenvolvimento de uma convivência mental saudável
nas situações de doença corporal.
1. OS ESTILOS PESSOAIS
Cada pessoa tem seu estilo próprio de estar bem ou
doente, de lidar com a saúde e a doença.
A enfermidade tem naturalmente um infuxo negativo sobre o
estado de ânimo. Medo, amargura, descontentamento, desinteresse,
enjôo, egoísmo, centralização de
toda a atenção sobre si mesmo e sobre os próprios
males são alguns dos traços naturais de quem
se sente doente. Forças de coragem e enfrentamento
devem ser buscadas na formação interior e, principalmente,
no sentido que todo o peso que a cruz possa ter.
De maneira muito natural, a vida pessoal é imaginada
saudável e feliz, e qualquer sofrimento ou doença
são tidos como um incidente perturbador, um obstáculo
no roteiro da existência.
Contudo, a realidade é outra. Trazemos em nossa condição
humana, no próprio tecido da vida, nos seus fundamentos
biológicos, em nosso corpo e em nossa mente, as razões
primeiras do sofrimento. Este é parte de nosso patrimônio.
A dor e a doença nos fazem sair do sonho e cair na
realidade.
1.I. Os que não se cuidam
De um lado, encontramos o desabusado, o indiferente, o desatento,
e aqueles que não sabem cuidar-se. Alimentação
saudável é coisa que desconhecem. E incrível
o regime alimentar tão impróprio de alguns e
até de comunidades inteiras, às vezes mesmo
de comunidades formadas por pessoas já de idade: comidas
gordurosas e sobrecarregadas de tempero, excesso de massas
e de carnes, ausência de frutas, de verduras e de legumes,
sem falarmos nas bebidas fortes em quantidade exagerada. Outros
se descuidam do descanso necessário, mantendo um ritmo
de trabalho que até para jovens seria excessivo.
1.2. Os exageras
De outro lado, estão o preocupado e o hipocondríaco.
Este último vive cultivando pretensas enfermidades,
assustado com todo tipo de mele possíveis, colacionando
informações e terapias, acumulando remédios
regimes e cautelas. E quem não conhece pessoas que
só se anima quando a conversa gira em torno de doenças,
remédios e tratamentos de saúde?
Nem são raras as pessoas que descarregam as tensões
gerais da vida nos cuidados exagerados e nos temores constantes
com a saúde. Sem se dar conta, elas transferem para
o organismo seus problemas de ordem emocional. As inseguranças
existenciais são vividas como se fosse dificuldades
e fraquezas corporais. Os remédios de todo tipo, os
regime constantes, minuciosos e detalhados, as terapias mais
estravagantes passam a ser o refúgio e o apoio que
substituem os amparos afetivos que o sujeito desejaria receber.
Os consultórios médicos são os santuário
visitados com uma devoção constante. As farmácias
vivem fazendo festa com a presença quase cotidiana
desses fregueses.
1.3. Saber cuidar-se
Saber cuidar-se sem exagero é uma arte a ser desenvolvida
com chegada dos sintomas provocados pelo tempo que passa e
leva consigo a juventude. Principia a presença de alguns
desgastes e aumentam muito os riscos sérios na área
da saúde. Há cautelas que então não
podem ser omitidas. São frequentes as alterações
da pressão arterial, os problema circulatórios
pelo enrijecimento dos vasos sanguíneos, os cálculos
biliares e renais, e assim por diante. 0 homem não
pode deixar de estar alerto pois a próstata se transforma
numa área de risco a ser periodicamente controlada
pelo médico. As transformações orgânicas
da menopausa feminina devem ser acompanhadas pelo ginecologista.
Nos cuidados com a saúde, não são buscados
o alívio da dor e a cura da doença. Deve ter
um lugar próprio a preservação, a otimização,
a melhor eficiência física, mental, social para
o sujeito em seu contexto de convivência, a comunidade
de modo especial, e todo o contexto, estilo de vida e de trabalho.
Pa. José Luiz Martinez escreve neste livro a respeito
do cuidar de si. Remeto-o(a) você, leitor(a), para lá.
Vale a pena.
2. MAS O QUE É DOENÇA?
As noções de saúde e doença são
importantes. Hoje elas caminharam da conceituação
individual e corporal para a psicosocial. Estar doente ou
com saúde não é um problema apenas do
indivíduo e de seu organismo físico. É
algo que se reflete na pessoa psicossocialmente engajada,
com ressonâncias no seu ambiente de vida e de trabalho.
Isto vale também para o ambiente de vida da pessoa
consagrada: sua comunidade.
2.1. Conceituando a saúde
Que vem a ser a saúde?
Um conceito primário e freqüente de saúde
seria: "0 estado ou condição na qual a
pessoa pode desenvolver um padrão normal de vida e
de trabalho, sem sentir dores fora do comum". Porém
esta é uma noção positivista e incompleta,
presa ao bem-estar físico e a um único sintoma
- a dor. Saúde seria simplesmente não sentir
a doença. Contudo, não é raro a pessoa
estar muito mal sem se dar conta de seu estado precário,
porque não sofre dores. Há enfermidades que
só se manifestam quando o organismo já está
quase destruído...
Saúde é muito mais do que não estar enfermo.
É mais correto o conceito abrangente do bem-estar geral
da pessoa. Saúde é uma qualidade de vida resultante
do bom funcionamento da pessoa como um todo. A Organização
Mundial da Saúde assim a define: um "estado de
completo bem-estar físico, psíquico e social".
É a condição na qual o sujeito é
capaz de mobilizar todos os seus recursos intelectuais, emocionais,
volitivos e físicos para uma existência de qualidade.
Entretanto, ao conceito da OMS deve ser acrescentada a dimensão
do bem-estar espiritual. Na cultura hindu, por exemplo, a
saúde significa estar em paz consigo, com a comunidade,
com Deus e com o universo.
Mesmo agora, na comunidade religiosa, alguém marcado
pela enfermidade nunca é um sofredor solitário.
Queira ou não, há sempre um reflexo na fraternidade,
e a qualidade da convivência fraterna é alterada
para melhor ou para pior pela presença da doença.
2.2. Preservar a saúde
No cuidado com a saúde, não devemos buscar apenas
o alívio ou cura da doença já adquirida,
mas também a preservação, a otimização
do estado sanitário, a melhor eficiência física,
psíquica e relacional para nós mesmos e para
as comunidades de que somos parte.
Mais que uma situação estática ou emrepencial,
o cuidado é um processo dinâmico. Deve abranger
a pessoa toda, corpo, mente, psique espiritualidade, num empenho
de integração e ressonância social. Ele
deve ir mais além: todo o contexto - meio ambiente
físico e sacial estilo de vida e de trabalho - está
envolvido no cuidado com a saúde.
A revista Contact, n. 79, de março 1993, uma publicação
da Comissão Médica Cristã do Conselho
Mundial de Igrejas, tem uma reportagem curiosa sobre o desenvolvimento
da noção de "obusinge" ou seja, do
conceito amplo de saúde na língua de uma população
do Zaire. Foram enumeradas as condições mínimas
para a saúde familiar: (1) um casal saudável,
vivendo junto e com capacidade de cuidar dos filhos dependentes,
(2) de dois a seis filhos com pelo menos dois anos de intervalo
entre cada nascimento, (3) paz na família entre a família
e seus vizinhos,(4) educação de nível
primário para todos os filhos e oportunidades para
alguns dos filhos continuarem no nível secundário,
(5) certa capacidade em finanças domésticas,
em serviços de saúde e para aprender, (6) meio
hectare de terra cultivável, (7) duas ou mais refeições
cozidas por dia, (8) um padrão adequado de higiene
e manutenção da casa, (9) fácil acesso
à água (10) serviço médico acessível.
Faça você, leitor(a), a transposição
dessa listagem para seu contexto pessoal e comunitário
e veja como a saúde é bem mais do que não
estar doente.
IV. 0 FRACASSO, UMA EXPERIÊNCIA HUMANA
"0 fracasso é tão estranho ao mundo físico
quanto a vontade a um terremoto ou a uma inundação"
(C. Kohler). Só onde há inteligência e
capacidade de projetos, só onde as expectativas futuras
alimentam presente, é possível a desencantadora
experiência do malogro.
1. ENTRE 0 DESEJO E A REALIDADE
É geralmente ao fim dos 40 anos que principiamos a
nos dar conta de que nosso projetos juvenis foram maiores
que a capacidade de realizá-los. Faltou tempo, falta
competência, falta força, faltaram apoio e estímulo,
faltaram condições... seja lá o que for,
o certo é que nem tudo o que foi traçado ou
sonhado acaba tomando forma. Aquilo que antes era adiado para
mais tarde fica "sine die"...
A segunda idade é aquela em que chegamos de maneira
mais definitiva ao real. Quem viveu dos sonhos, das esperanças,
dos projetos, agora acorda. De repente, percebemos que entre
todas as coisas possíveis apenas algumas acabam acontecendo.
Infinitos são os sonhos, onipotente é o desejo!
Isto porque eles não estão circunscritos ao
possível. Muito mais estreito é o território
onde na verdade acontecem os fatos.
A criança que tem brinquedos demais acaba não
brincando com nenhum, a não ser que deixe alguns de
lado. Faz parte da condição humana o ter de
escolher os próprios caminhos. Ao contrário
dos animais, quase totalmente programados em seu comportamento,
nós nascemos com um fundo de liberdade que a vida só
faz crescer. São muitas as estradas, mas não
podemos percorrê-las todas. E chega o momento em que
só nos resta abandonar aquilo tudo que nossos limites
pessoais ou circunstanciais não nos permitem transpor.
Não existe inteira correspondência entre os espaços
da liberdade, das possibilidades e aquilo que acaba se concretizando.
Significa isso que é parte do destino humano o viver
entre os projetos, as realizações e as frustrações.
A história de cada um é uma sucessão
de uns tantos projetos levados adiante, ao lado de outros,
mais numerosos, esquecidos, abandonados ou só parcialmente
concluídos.
A sensibilidade do poeta nos lembra:
"Também rios corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como soam as pombas dos pombais;
No azul ria adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais..."
(Raimundo Correia, "As Pombas")
Isso tudo não significa que os sonhos
devam morrer, nem que as esperanças devam murchar.
Eles e elas têm um papel dinâmico. É aí
que encontramos força e inspiração. 0
que deve acontecer, isto sim, é que o lastro de realismo
dos nossos projetos seja maior, e que os fundamentos das nossas
decisões se alicercem na solidez do possível.
Quem não deseja e não sonha perdeu a vida. E
quem não caminha com os pés no chão não
chega a parte alguma.
Uma das boas lições da vida é o aprendizado
da convivência com a dialética do desejo e da
realidade. É também uma boa escola de vida a
que nos ensina a desenvolver a capacidade de resistência
ao fracasso. E o aprendizado deve ir adiante: o malogro nos
dá ocasião de aprender também com o que
não deu certo e com o que não foi possível.
"A vida é um combate,
Que os fracos abate,
Os fortes e os bravos
Só pode exaltar".
(Gonçalves Dias)
Tanto mais necessária é a fortaleza
de ânimo quanto maior for a situação de
fracasso. Entregar-se, desistir, fugir são reações
que não confortam, não eliminam a dor.
As fugas mais desastrosas são as de ordem psicológica.
Os mecanismos de defesa, ou seja, as reações
e manobras interiores, inconscientes em grande parte, que
utilizamos para não ter de enxergar as realidades que
poderiam ser desagradáveis ou ameaçadoras demais
para nosso eu, são muitas vezes empregados como recursos
diante do fracasso. Como a raposa da fábula, procuramos
desculpas para não admitir que falhamos. Com facilidade,
encontramos bodes expiatórios, distribuímos
culpas entre os que estão ao nosso lado... Ou então
nos compensamos com falsas gratificações que
nos consolem quando não conseguimos o sucesso sonhado.
É muito mais saudável olhar no rosto da realidade
e aceitar nossa condição humana de limitados,
despreparados, ou seja lá o que for que não
nos levou ao triunfo das concretizações.
É necessário aprender com a dor, a doença
e o fracasso, desenvolver o bom-senso de quem não se
afoga nas emoções sofridas, de quem analisa,
revisa, busca novas pistas e soluções. E de
quem se permite chorar, mas não se afoga nas lágrimas.
2. ABANDONAR AS CERTEZAS
Falei até agora do fracasso dos sonhos e projetos não-realizados.
Há ainda outro contexto para a experiência do
malogro. Trata-se das realidades antes firmes e que pelas
mais diversas razões foram abaladas.
A geração de religiosos(as) que está
nos anos finais da segunda idade passou por uma experiência
histórica desse tipo. A sua vivência infantil
de Igreja, a formação para a Vida Religiosa
recebida em sua juventude, as práticas de vida comunitária
e de ação pastoral que Ihes foram transmitidas,
a catequese e a teologia que ilustraram sua fé juvenil
foram realidades que nos seus tempos pareciam definitivas.
Entretanto, os ventos renovadores do Vaticano II e toda a
busca de adaptação da Igreja. especialmente
da Vida Consagrada, aos tempos atuais e às necessidades
do homem de agora sopraram aquilo tudo, antes tão certo
e duradouro, como folhas mortas.
Grande parte das pessoas consagradas e dos Institutos passaram
pela renovação eclesial com a gratificante sensação
primaveril dos brotos e botões de flores que nascem
com viço. Para muitos, foi maravilhoso viver e experimentar
todo o complexo processo de atualização da Vida
Religiosa.
Contudo, houve quem sentisse o frio inverno. Desarvorados,
viram a degradação e a perda de tudo o que para
eles dava sentido ao existir na consagração.
Infelizmente ainda presenciamos gente fazendo força
para recuperar o ultrapassado, para retornar à antiga
forma de ser religiosos(as). Seus olhos estão mais
para o fracasso, para a perda e para o abandono das antigas
garantias e seguranças, tanto em termos doutrinais
como nas práticas da vida. Isso é fruto de não
saber ir adiante, de não conseguir lidar com a frustração
e o fracasso como momentos de descoberta do novo.
Esta geração traz consigo a responsabilidade
de percorrer os caminhos renovados ou de retornar para as
velhas trilhas. Estas últimas são aparentemente
mais seguras. Já foram experimentadas antes e ficou
comprovado que conduziam para onde se desejava chegar. 0 problema
é que "as alegrias e as esperanças, as
tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo
dos pobres e de todos os que sofrem, são também
as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias
dos discípulos de Cristo" (Gaudium et Spes). Os
discípulos de Cristo querem chegar ao jeito humano
de ser hoje, não mais isolar-se na torre de marfim,
alheios à vida que passa agora por eles.
3. EXORCIZAR 0 DEMÔNIO MERIDIANO
A inventividade dos monges do deserto encontrou um nome significativo
para o desânimo e o desencanto que batem à porta
da segunda idade. 0 "demônio do meio-dia'' ataca
aqueles e aquelas que já estão, faz uns bons
anos, nas rotinas da Vida Consagrada.
Quando já se foram os entusiasmos da juventude, começa
a pesar a secura dos dias que se sucedem sem nada de novo
e se faz cheia de tédio a vida. É a crise específica
da segunda idade. 0 ramerrão cotidiano é então
sublinhado pela frustração resultante do balanço
que se faz da existência. 0 confronto dos ideais e projetos
da juventude com aquilo que se consegue de fato viver pode
transformar a idade madura em uma aridez de deserto...
João Cassiano, monge teólogo do século
IV, descreveu a tentação do demônio meridiano:
"Quando este demônio se apodera da infortunada
alma de um monde, inspira-Ihe o horror de seu ambiente, faz
com que ele perca o gosto pela sua cela, inspira o desprezo,
a desestima por seus irmãos, tendo-os por negligentes
ou pouco espirituais. Torna-o mole e preguiçoso para
todos os trabalhos do mosteiro. Não Ihe permite permanecer
em sua cela nem aplicar-se à leitura". Esse demônio
acena com outros cestos para o religioso ou religiosa de hoje,
pois agora o estilo . de vida ativa e os espaços de
atuação são diferentes. Mas, em última
análise, são sempre o desencanto, a perda de
sentido para a vida, a impressão de que nada vale a
pena, a insatisfação que leva à passividade
. ou, pior, à desistência, as queixas e críticas
por tudo e por nada. Cassiano já retratava há
tantos séculos aquilo que agora foi denominado '`vazio
existencial" pelo loterapeuta Viktor Frankl.
Surgem as seduções de busca de compensações,
de privilégios, de distrações constantes,
de aparentes e falsos motivos pra turismo disfarçados
de busca de estudos ou de aproveitamento espiritual. Outros
cultuam ,o amargor da alma, a intrica e a murmuração.
E quase todos tendem a lançar a culpa por seu mal-estar
em terceiros, nos coirmãos, no Instituto, na Igreja,
nos superiores e em quantos bodes expiatórios estejam
disponíveis.
Só é possível exorcizar esse demônio
interior do meio-dia da vida quando admitimos que ele está
dentro de nós mesmos. É preciso que o religioso
enfrente seu mal-estar interior com sinceridade e coragem,
não fuja de si mesmo para distrações
e desculpas ilusórias.
Há recursos que podem ajudar muito. Em vez de fechar-se
em suas amarguras e desilusões, a ajuda fraterna do
diálogo pessoal e comunitário, do confronto
com um diretor de espírito, ou, quando for o caso,
um acompanhamento psicológico, podem ajudar a encontrar
o sentido para a travessia do deserto, para a superação
das tentações de volta para o Egito, de revolta
contra Javé ou da construção de um bezerro
de ouro.
E. de modo central e decisivo, o cultivo da oração,
da meditação, da escuta da Palavra é
o caminho para reencontrar o sentido da vida, o entusiasmo,
não agora a vibração juvenil diante de
sonhos fantasiosos de grandes êxitos, mas a constância
da carda pesada das rotinas que constroem a solidez da vida.
Só quando colocamos nossas inquietações
diante do Pai que nos chamou, conseguimos as respostas que
nos esclarecem e redespertam a coragem de vivenciar a consagração,
pois é Ele doem justifica as decisões de entrega
total de nós mesmos que foram tomadas no princípio
e que agora nos conduzem.
V. CONCLUINDO
Nos, cristãos, lidamos diariamente com o fracasso da
cruz e com a Ressurreição. A fé não
pode ser uma coberta que encobre e disfarça, mas um
sentido que conforta, que transforma a morte em Vida.
Viver a segunda idade da Vida Religiosa é uma aventura,
como aventura é viver! Daí se descortina um
panorama novo, apenas entrevisto em sonhos na juventude, apara
transformado em realidade. A plenitude da adultez significa
a plena responsabilidade consciente pelos passos dados nas
rotas da existência. Já não cabem as desculpas
da inexperiência, nem a ingenuidade justifica mais as
escolhas que fazemos. Adora é a hora de você
fazer acontecer aquilo a que se propôs nos projetos
primaveris.
Viver a secunda idade da Vida Religiosa é também
saber conviver com o peso dos encargos e das rotinas. A dor,
o desgaste, a doença e o cansaço são
os frequentes companheiros de estrada. A frustração
dos sonhos esfumados aí está, marcando os limites.
Mas é para não ter medo dos novos espaços
e roteiros.
Ainda podem e devem ser abertas novas portas, nestes nossos
tempos que vão mudando tão depressa, tanto no
que se refere às competências quanto aos tipos
de atividades. Foi falado acima dos falsos motivos para a
busca de estudo, como uma fuga ao fastio do demônio
meridiano. Totalmente outra coisa, e esta muito vital, é
o empenho constante de atualização, o cuidado
com o estudo, o não se contentar com a bagagem adquirida
no passado, sabendo que hoje, mais do que nunca, o tempo passa
depressa e os conhecimentos e as práticas do fazer
também envelhecem.
***
Não é aqui o lugar para uma filosofia ou teologia
do sofrimento. Ficam apenas um lembrete e um aceno.
0 lembrete é a respeito da necessidade de, de vez em
quando, parar e pensar sobre a questão fundamental:
``Que sentido tenho encontrado para as dores e as doenças,
as desilusões e os fracassos que pontilham minha vida?
'' O aceno é para o pensamento de Paulo, o apóstolo,
um homem que teve a existência marcada por aquilo que
ele chamava tribulação.
Depois de lembrar a grandeza de sua missão apostólica,
Paulo expressa a consciência de que trazia "esse
tesouro guardado em vasos de barro". a fragilidade humana.
E continua: "Em tudo somos atribulados, mas não
esmagados, perplexos, mas não desanimados, perseguidos,
mas não desamparados, abatidos, mas não destruídos.
Trazemos sempre no nosso corpo os traços da morte de
Jesus, pra que também a vida de Jesus se manifeste
no nosso corpo" (2Cor 4,7-I I). Nos textos paulinos,
"tribulação" tem o sentido dinâmico
da luta, caminho de realização do difícil
itinerário da História da Salvação.
Esta não acontece no percorrer de uma rota triunfal,
mas pela cruz, caminho necessário para a ressurreição.
Vale a pena reler todo o contexto dessa passagem, em que Paulo
dá as razões pelas quais ele consegue superar
todos os sofrimentos que o atribularam: "... sabendo
que aquele que ressuscitou Jesus, também com ele nos
há de ressuscitar e nos fará aparecer diante
dele convosco... Por isso não desfalecemos. Ainda que
em nós se destrua o homem exterior, 44 o interior renova-se
diariamente. Porque a nossa leve e momentânea tribulação
prepara-nos para além de toda e qualquer medida, um
peso eterno de glória" (2Cor 4,14-17).
Foi em Jesus Cristo que Paulo conseguiu descobrir o valor
da cruz: "Despojou-se de si mesmo, tomando a condição
de servo, tornando-se semelhante aos homens, tido pelo aspecto
como homem, humilhou-se a si mesmo, feito obediente até
a morte e morte de cruz. Por isso é que Deus o exaltou
e lhe deu um nome que está acima de todo nome"
(F1 2,7-10).
Sem dúvida, a resposta de Deus para os questionamentos
humanos sobre a dor e o sofrimento é a encarnação
do Verbo. Esta é uma resposta que pode e deve estar
ao alcance de quem se propõe seguir de perto a Jesus
Cristo.
ORAÇÃO
Alexandre Pronzato
Senhor, aconteceu-me ler certas orações
que eram para pedir-Ihe o "aprender a envelhecer".
Mas é muito pouco pedir-Ihe o aprender a envelhecer.
Eu não peço isso. Não quero molestá-lo
por tão pouco.
Peço-lhe, isso sim, não envelhecer.
Mas não me entenda mal, Senhor!
Possivelmente desejaria cheirar aos setenta anos e mais.
Mas sem tornar-me velho.
Não me diga que isso é impossível, por
favor.
Não Ihe peço não envelhecer de maneira
absoluta.
Entre outras coisas, penso que o permanecer jovens
seria a forma mais segura de fidelidade ao dom da vida.
Assim, pois, Senhor, não quero envelhecer.
E espero seu apoio para esta petição um pouco
atrevida.
Faça com que eu seja de meu tempo, e não de
minha idade.
Que não me prenda doentiamente às idéias.
como um avarento a seu dinheiro.
E sim, que eu controle sua validade,
e sobretudo me assegure constantemente de sua convertibilidade.
Faça-me olhar com simpatia o que fazem os demais,
Principalmente se tentam algo em que eu não tenha pensado
nunca.
Que eu saiba compreender mais que julgar.
Apreciar mais que condenar.
Animar mais que desconfiar.
Faça-me compreender que é importante o que faço
hoje,
não o que fiz há dez anos.
Os demais têm direito de receber de mim o que sou,
não o que fui.
Que nunca eu me faça personagem,
e sim que me sinta sempre em dívida comigo e com os
outros.
Ensine-me a dizer, a repetir, a afirmar com convicção:
"Não sei", "ainda tenho de aprender
isso", "sou um principiante" na vida,
porque a vida começa sempre de novo, e é diferente
a cada dia.
Não, não posso envelhecer.
0 Senhor "Permite que eu acerte meu relógio com
a hora presente?"
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