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Ano 2003

Fraternidade e
as Pessoas Idosas

Dignidade, Vida e Esperança
 
Cartaz
 
 
 
Campanha da Fraternidade 2003
Textos Complementares
 
Viver o sofrimento: A doença e o fracasso
na segunda idade da vida religiosa.

"Tu dirás que é a Morte: eu direi que é a vida (M. de Assis).


I. A SEGUNDA IDADE

O tempo da secunda idade na Vida Religiosa é longo e abrangente, mesmo se o colocarmos nos seus limites mais estreitos, dos 40 aos 60 anos. Seriam vinte anos de existência adulta, normalmente de plena atividade. Mas longo ainda ele será, se, com realismo, o ampliarmos dos 35 até os 65 anos.

Trata-se do percurso do final da juventude para o início da terceira idade. Essa passagem é sua unidade básica, a que melhor define tal período da existência. Mas a maturidade de vida não transcorre toda por igual, com as mesmas características. Será mais exato subdividi-1a em duas grandes etapas: uma primeira, que é a da entrada na plena adultez, na plenitude de vida, e outra, que se qualifica pela caminhada progressiva para a terceira idade.

Vejamos um pouco melhor essas duas etapas da secunda idade.

1. PLENITUDE ADULTA


0 portal de entrada para a maturidade está lá pelos 35 anos. 0 sujeito então adquire muito rapidamente uma nova consciência de si: "Não sou mais um jovem. Sou um adulto". Os olhos não se voltam tão constantemente para o futuro como acontecia até adora. Eles se fixam cada vez mais na tarefa de viver o presente.

1.1. Consolidação e experiência

Este adulto tem consigo a bagagem adquirida nos anos juvenis. Ele é dono de uma consolidação de vida (engajamento perpétuo na VR, com definição de suas atividades profissionais e pastorais) e de uma experiência fundamental (segurança do não-noviço, vivência comunitária). Ele possui a autonomia de quem se sente capaz de ir adiante por si mesmo e a esperança de vida realizadora e feliz. ele já traz um pacote de compromissos assumidos, os quais orientam, limitam e direcionaram seus passos.

A experiência recente da juventude ainda é para ele um marco referencial, embora venha acompanhada da consciência progressiva de que se trata de uma realidade já ultrapassada. Estão preenchidos os deveres centrais do desenvolvimento físico, psicológico e social. Não é mais o sol da manhã juvenil, mas o astro do meio-dia que ilumina a vida. 0 que conta é o presente.

É o tempo da consolidação, do firmar-se nos espaços conquistados, tanto sociais como profissionais. É hora de dar expansão à criatividade, produzir, assumir as responsabilidades. 0 sujeito se sente em plena vida, dono de suas forças, aplicando-as no cumprimento da missão. Tem-se a impressão, ilusória impressão, de que daí para a frente será sempre assim.

2. A VIDA PASSA

A transição do primeiro para o segundo momento da segunda idade tem lugar naquele instante em que o sujeito assume sua condição de humano: "A vida passa, eu estou mudando'. Com realismo ele nota que se acabaram os sonhos. Voltando-se cada vez mais para si, pergunta-se a respeito do sentido da vida.

2.1. Trocar força por sabedoria

É lá pelos 50 anos, pouco mais pouco menos, que acontece uma mudança interior: cresce a consciência de que o tempo está indo embora, começam a se fazer fortes os indícios do desgaste corporal, percebe-se que nem tudo o que estava sendo planejado para a vida poderá ser executado. Com mais frequência, a doença, a desilusão e o fracasso estão presentes. Agora os olhos interiores fixam-se na velhice que se aproxima. Mas ela ainda não checou de todo.

Ainda é tempo de manter o desempenho, de continuar participante, de carregar o peso dos compromissos. Agora todavia é necessário compensar as perdas, trocar a agilidade e a esbeltez pela experiência e pela prudência, não mais querer resolver tudo pela força, mas pela sabedoria. E é preciso saber preparar-se para a terceira idade.

Paul Chauchard lembra: "O estado adulto não é um estado de equilíbrio estático, contrário às leis biológicas". É um equilíbrio dinâmico, luta incessante contra o desequilíbrio. "É também a luta contra o desgaste natural, efeito do passar do tempo, e contra o desgaste produzido pela vida vivida".

É freqüente falar da segunda idade da Vida Religiosa centrando toda a atenção nos aspectos de perda, de limites, de doença, de sofrimento, de desequilíbrio e de fracasso. Porém cabem aqui duas considerações:

* primeiro, doença e fracasso são possíveis companheiros de toda a vida. Podem estar presentes a qualquer momento, não são privilégios do religioso e da religiosa da secunda idade;
* segundo, como vimos acima, a vida adulta é também o penado daquilo que E. Erikson denominou "generatividade", do gerar vida, do ser útil, do cuidar. Veja o que Ir. Teresinha Mendonça Del'Acqua escreve neste mesmo livro a respeito dessa tarefa do adulto.

Achei importante fazer essas observações. Minha missão neste texto é escrever sobre o lidar com as doenças e limitações na segunda idade da Vida Religiosa. Limitação e doença, é verdade, são problemas que, se estão presentes a qualquer momento, agora, neste período quase sempre não deixam de comparecer. Os anos vividos começam a pesar, o desgaste é cada vez maior... Entretanto, seria incorreto encará-las como realidades exclusivas e caracterizadoras únicas ou mais fortes de tal momento. Imaginar, ou pior, viver a segunda idade da Vida Religiosa como um período da existência maiormente determinado pelas perdas, sofrimentos, doença e envelhecimento, seria uma visão extremamente falha pelo reducionismo ao negativo.

Pretendo fazer aqui uma abordagem preventiva e de convivência saudável com o inevitável desgaste da idade, do vivido e do sofrido. Não vou limitar-me ao biológico e corporal, do organismo que começa . a passagem, a travessia pelas veredas da maturidade rumo à terceira idade que se prenuncia.

0 programa de cada um não pode ser apenas o "prevenir é melhor que remediar", mas a busca do saber saborear a fruta madura, o saber viver saudavelmente o momento da adultez. A perspectiva realista não se fixa unicamente, nem mesmo principalmente, nas perdas, seja qual for a etapa da vida.

Nós, religiosos, devemos aprender a desenvolver a melhor convivência com a secunda idade de nossa vida. Ela é uma realidade muito presente em nossas comunidades. É grande a proporção de religiosos e religiosas que a estão vivendo. Pessoas e comunidades podem e devem desenvolver estratégias de melhor aproveitamento possível das riquezas de vida que estão aí nessa etapa da existência.

11. ENVELHECIMENTO, UM PROCESSO

A segunda idade, mesmo em seus aspectos de envelhecimento que se inicia, não é o término da robustez. Trata-se geralmente de um primeiro rebate, do caminhar do pleno vigor ao começo do declínio. É uma decadência que já começou há muito... mas que antes era pouco ou nada perceptível.

0 processo de envelhecimento pouco a pouco se faz mais notório. Mas ele não é uma doença. É simplesmente parte do programa genético já inscrito nas primeiras células formadoras do novo organismo ainda no útero materno. Mesmo na infância, adolescência e juventude, quando estamos em pleno desenvolvimento, o desgaste, ainda imperceptível, já começou sua tarefa.
0 envelhecimento pode transcorrer de maneira muito saudável. Mas é freqüente que venha acompanhado de doenças, pois a ferrugem do tempo faz o organismo mais vulnerável.

1. PRIMEIROS REBATES

São indícios que se apresentam nessa fase da existência, prenúncios da velhice que vem vindo, as primeiras sombras do entardecer. Começam então as alterações do equilíbrio orgânico, e a recuperação mais lenta dos desgastes. Há diminuição do ritmo metabólico, alteração do peso, redistribuição e leve diminuição muscular, maior acúmulo de gorduras principalmente no abdome. menor capacidade respiratória e cardíaca.

Como essas coisas não aparecem prontas e definitivas, mas acontecem em ritmo quase imperceptível de início, nem sempre as pessoas se dão conta logo. Porém, um belo dia, a surpresa: um olhar no espelho, um fio de cabelo branco, uma ruga, uma dor muscular, a balança que acusa, a barriga que se cresce... seja lá o que for, e "pronto, estou envelhecendo!"

2. 0 EMOCIONAL

0 impacto maior é de ordem emocional. A auto-imagem sofre uma queda. principalmente nestes nossos tempos em que a juventude é glorificada por todos os meios.

Aqueles e aquelas que colocaram sua valorização principalmente nos traços e características juvenis agora se sentem ameaçados até no sentido da vida. Isso acontece com relativa freqüência entre os religiosos e as religiosas, pois, pelo fato de não terem filhos, não têm também um ponto de referência para seu próprio amadurecimento nos filhos que se desenvolvem e se fazem adolescentes.

Outros ainda, ao trabalharem pastoralmente com adolescentes e jovens, cultivam por todos os meios características que os assemelham a eles. Vestem-se como se fossem adolescentes sua fala é recheada de, gírias, apresentam-se e agem como se estivessem ainda lá pelos 18 anos. Aquilo que, no início, era até interessante, passa a tomar um colorido cada vez mais ridículo, à medida que os anos avançam.

Para alguns, os primeiros anúncios da plena maturação e os prenúncios da chegada progressiva da terceira idade ressoam com tanto desencanto e até com a sensação de que a vida está pelo fim, a ponto de não , serem capazes de entender que atingem na segunda idade um patamar mais alto de existência.

Aí, sem dúvida, não é mais a juventude com seu viço que dá o tom. Convém, entretanto, dar-se conta de que não é ainda a hora da fragilidade e nem mesmo da perda de vitalidade. É agora que a plena energia adulta pode somar-se com as riquezas da experiência e da sabedoria que começa. É então que a vida não mais é vivida em função do futuro, mas do presente. Chega a ocasião de abandonar os sonhos idealistas e os projetos adolescentes, a hora de escolher entre tantas possibilidades quais as mais viáveis e as que merecem preferência. É aí que a onipotência do desejo vai ser denotada pela implacável lei da realidade. Os prenúncios do envelhecimento alertam para uma verdade básica: o tempo passa! É preciso aproveitá-lo adora!

III. SAÚDE OU DOENÇA


Mesmo as pessoas mais saudáveis experimentam na segunda idade os primeiros rebates da diminuição da saúde plena. 0 organismo já não é o mesmo da juventude. 0 passar do tempo vai acentuando as fragilidades, diminuindo as resistências, corroendo as funções orgânicas. AS dores, enfermidades e enxaquecas de vários tipos tornam-se presenças mais e mais frequentes. Até a capacidade de trabalho será progressivamente afetada. Cada indivíduo tem uma história própria de doenças e fragilidades, de dores e sofrimentos, uma história marcada pela constituição pessoal, pelos cuidados e pelas circunstâncias.

Faz parte necessária do programa do aprendizado de vida da segunda idade o desenvolvimento do como cuidar-se na doença e na dor. Isso vai além dos cuidados físicos, dos remédios e semelhantes. Há todo um conjunto de reações emocionais diante da presença do sofrimento. Será necessário o desenvolvimento de uma convivência mental saudável nas situações de doença corporal.

1. OS ESTILOS PESSOAIS

Cada pessoa tem seu estilo próprio de estar bem ou doente, de lidar com a saúde e a doença.

A enfermidade tem naturalmente um infuxo negativo sobre o estado de ânimo. Medo, amargura, descontentamento, desinteresse, enjôo, egoísmo, centralização de toda a atenção sobre si mesmo e sobre os próprios males são alguns dos traços naturais de quem se sente doente. Forças de coragem e enfrentamento devem ser buscadas na formação interior e, principalmente, no sentido que todo o peso que a cruz possa ter.

De maneira muito natural, a vida pessoal é imaginada saudável e feliz, e qualquer sofrimento ou doença são tidos como um incidente perturbador, um obstáculo no roteiro da existência.

Contudo, a realidade é outra. Trazemos em nossa condição humana, no próprio tecido da vida, nos seus fundamentos biológicos, em nosso corpo e em nossa mente, as razões primeiras do sofrimento. Este é parte de nosso patrimônio. A dor e a doença nos fazem sair do sonho e cair na realidade.

1.I. Os que não se cuidam

De um lado, encontramos o desabusado, o indiferente, o desatento, e aqueles que não sabem cuidar-se. Alimentação saudável é coisa que desconhecem. E incrível o regime alimentar tão impróprio de alguns e até de comunidades inteiras, às vezes mesmo de comunidades formadas por pessoas já de idade: comidas gordurosas e sobrecarregadas de tempero, excesso de massas e de carnes, ausência de frutas, de verduras e de legumes, sem falarmos nas bebidas fortes em quantidade exagerada. Outros se descuidam do descanso necessário, mantendo um ritmo de trabalho que até para jovens seria excessivo.

1.2. Os exageras

De outro lado, estão o preocupado e o hipocondríaco. Este último vive cultivando pretensas enfermidades, assustado com todo tipo de mele possíveis, colacionando informações e terapias, acumulando remédios regimes e cautelas. E quem não conhece pessoas que só se anima quando a conversa gira em torno de doenças, remédios e tratamentos de saúde?

Nem são raras as pessoas que descarregam as tensões gerais da vida nos cuidados exagerados e nos temores constantes com a saúde. Sem se dar conta, elas transferem para o organismo seus problemas de ordem emocional. As inseguranças existenciais são vividas como se fosse dificuldades e fraquezas corporais. Os remédios de todo tipo, os regime constantes, minuciosos e detalhados, as terapias mais estravagantes passam a ser o refúgio e o apoio que substituem os amparos afetivos que o sujeito desejaria receber. Os consultórios médicos são os santuário visitados com uma devoção constante. As farmácias vivem fazendo festa com a presença quase cotidiana desses fregueses.

1.3. Saber cuidar-se


Saber cuidar-se sem exagero é uma arte a ser desenvolvida com chegada dos sintomas provocados pelo tempo que passa e leva consigo a juventude. Principia a presença de alguns desgastes e aumentam muito os riscos sérios na área da saúde. Há cautelas que então não podem ser omitidas. São frequentes as alterações da pressão arterial, os problema circulatórios pelo enrijecimento dos vasos sanguíneos, os cálculos biliares e renais, e assim por diante. 0 homem não pode deixar de estar alerto pois a próstata se transforma numa área de risco a ser periodicamente controlada pelo médico. As transformações orgânicas da menopausa feminina devem ser acompanhadas pelo ginecologista.

Nos cuidados com a saúde, não são buscados o alívio da dor e a cura da doença. Deve ter um lugar próprio a preservação, a otimização, a melhor eficiência física, mental, social para o sujeito em seu contexto de convivência, a comunidade de modo especial, e todo o contexto, estilo de vida e de trabalho. Pa. José Luiz Martinez escreve neste livro a respeito do cuidar de si. Remeto-o(a) você, leitor(a), para lá. Vale a pena.

2. MAS O QUE É DOENÇA?

As noções de saúde e doença são importantes. Hoje elas caminharam da conceituação individual e corporal para a psicosocial. Estar doente ou com saúde não é um problema apenas do indivíduo e de seu organismo físico. É algo que se reflete na pessoa psicossocialmente engajada, com ressonâncias no seu ambiente de vida e de trabalho. Isto vale também para o ambiente de vida da pessoa consagrada: sua comunidade.

2.1. Conceituando a saúde

Que vem a ser a saúde?


Um conceito primário e freqüente de saúde seria: "0 estado ou condição na qual a pessoa pode desenvolver um padrão normal de vida e de trabalho, sem sentir dores fora do comum". Porém esta é uma noção positivista e incompleta, presa ao bem-estar físico e a um único sintoma - a dor. Saúde seria simplesmente não sentir a doença. Contudo, não é raro a pessoa estar muito mal sem se dar conta de seu estado precário, porque não sofre dores. Há enfermidades que só se manifestam quando o organismo já está quase destruído...

Saúde é muito mais do que não estar enfermo. É mais correto o conceito abrangente do bem-estar geral da pessoa. Saúde é uma qualidade de vida resultante do bom funcionamento da pessoa como um todo. A Organização Mundial da Saúde assim a define: um "estado de completo bem-estar físico, psíquico e social". É a condição na qual o sujeito é capaz de mobilizar todos os seus recursos intelectuais, emocionais, volitivos e físicos para uma existência de qualidade. Entretanto, ao conceito da OMS deve ser acrescentada a dimensão do bem-estar espiritual. Na cultura hindu, por exemplo, a saúde significa estar em paz consigo, com a comunidade, com Deus e com o universo.

Mesmo agora, na comunidade religiosa, alguém marcado pela enfermidade nunca é um sofredor solitário. Queira ou não, há sempre um reflexo na fraternidade, e a qualidade da convivência fraterna é alterada para melhor ou para pior pela presença da doença.

2.2. Preservar a saúde

No cuidado com a saúde, não devemos buscar apenas o alívio ou cura da doença já adquirida, mas também a preservação, a otimização do estado sanitário, a melhor eficiência física, psíquica e relacional para nós mesmos e para as comunidades de que somos parte.

Mais que uma situação estática ou emrepencial, o cuidado é um processo dinâmico. Deve abranger a pessoa toda, corpo, mente, psique espiritualidade, num empenho de integração e ressonância social. Ele deve ir mais além: todo o contexto - meio ambiente físico e sacial estilo de vida e de trabalho - está envolvido no cuidado com a saúde.

A revista Contact, n. 79, de março 1993, uma publicação da Comissão Médica Cristã do Conselho Mundial de Igrejas, tem uma reportagem curiosa sobre o desenvolvimento da noção de "obusinge" ou seja, do conceito amplo de saúde na língua de uma população do Zaire. Foram enumeradas as condições mínimas para a saúde familiar: (1) um casal saudável, vivendo junto e com capacidade de cuidar dos filhos dependentes, (2) de dois a seis filhos com pelo menos dois anos de intervalo entre cada nascimento, (3) paz na família entre a família e seus vizinhos,(4) educação de nível primário para todos os filhos e oportunidades para alguns dos filhos continuarem no nível secundário, (5) certa capacidade em finanças domésticas, em serviços de saúde e para aprender, (6) meio hectare de terra cultivável, (7) duas ou mais refeições cozidas por dia, (8) um padrão adequado de higiene e manutenção da casa, (9) fácil acesso à água (10) serviço médico acessível. Faça você, leitor(a), a transposição dessa listagem para seu contexto pessoal e comunitário e veja como a saúde é bem mais do que não estar doente.

IV. 0 FRACASSO, UMA EXPERIÊNCIA HUMANA

"0 fracasso é tão estranho ao mundo físico quanto a vontade a um terremoto ou a uma inundação" (C. Kohler). Só onde há inteligência e capacidade de projetos, só onde as expectativas futuras alimentam presente, é possível a desencantadora experiência do malogro.

1. ENTRE 0 DESEJO E A REALIDADE

É geralmente ao fim dos 40 anos que principiamos a nos dar conta de que nosso projetos juvenis foram maiores que a capacidade de realizá-los. Faltou tempo, falta competência, falta força, faltaram apoio e estímulo, faltaram condições... seja lá o que for, o certo é que nem tudo o que foi traçado ou sonhado acaba tomando forma. Aquilo que antes era adiado para mais tarde fica "sine die"...

A segunda idade é aquela em que chegamos de maneira mais definitiva ao real. Quem viveu dos sonhos, das esperanças, dos projetos, agora acorda. De repente, percebemos que entre todas as coisas possíveis apenas algumas acabam acontecendo. Infinitos são os sonhos, onipotente é o desejo! Isto porque eles não estão circunscritos ao possível. Muito mais estreito é o território onde na verdade acontecem os fatos.

A criança que tem brinquedos demais acaba não brincando com nenhum, a não ser que deixe alguns de lado. Faz parte da condição humana o ter de escolher os próprios caminhos. Ao contrário dos animais, quase totalmente programados em seu comportamento, nós nascemos com um fundo de liberdade que a vida só faz crescer. São muitas as estradas, mas não podemos percorrê-las todas. E chega o momento em que só nos resta abandonar aquilo tudo que nossos limites pessoais ou circunstanciais não nos permitem transpor. Não existe inteira correspondência entre os espaços da liberdade, das possibilidades e aquilo que acaba se concretizando. Significa isso que é parte do destino humano o viver entre os projetos, as realizações e as frustrações. A história de cada um é uma sucessão de uns tantos projetos levados adiante, ao lado de outros, mais numerosos, esquecidos, abandonados ou só parcialmente concluídos.

A sensibilidade do poeta nos lembra:

"Também rios corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como soam as pombas dos pombais;

No azul ria adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais..."
(Raimundo Correia, "As Pombas")

Isso tudo não significa que os sonhos devam morrer, nem que as esperanças devam murchar. Eles e elas têm um papel dinâmico. É aí que encontramos força e inspiração. 0 que deve acontecer, isto sim, é que o lastro de realismo dos nossos projetos seja maior, e que os fundamentos das nossas decisões se alicercem na solidez do possível. Quem não deseja e não sonha perdeu a vida. E quem não caminha com os pés no chão não chega a parte alguma.

Uma das boas lições da vida é o aprendizado da convivência com a dialética do desejo e da realidade. É também uma boa escola de vida a que nos ensina a desenvolver a capacidade de resistência ao fracasso. E o aprendizado deve ir adiante: o malogro nos dá ocasião de aprender também com o que não deu certo e com o que não foi possível.

"A vida é um combate,
Que os fracos abate,
Os fortes e os bravos
Só pode exaltar".
(Gonçalves Dias)

Tanto mais necessária é a fortaleza de ânimo quanto maior for a situação de fracasso. Entregar-se, desistir, fugir são reações que não confortam, não eliminam a dor.

As fugas mais desastrosas são as de ordem psicológica. Os mecanismos de defesa, ou seja, as reações e manobras interiores, inconscientes em grande parte, que utilizamos para não ter de enxergar as realidades que poderiam ser desagradáveis ou ameaçadoras demais para nosso eu, são muitas vezes empregados como recursos diante do fracasso. Como a raposa da fábula, procuramos desculpas para não admitir que falhamos. Com facilidade, encontramos bodes expiatórios, distribuímos culpas entre os que estão ao nosso lado... Ou então nos compensamos com falsas gratificações que nos consolem quando não conseguimos o sucesso sonhado.

É muito mais saudável olhar no rosto da realidade e aceitar nossa condição humana de limitados, despreparados, ou seja lá o que for que não nos levou ao triunfo das concretizações.

É necessário aprender com a dor, a doença e o fracasso, desenvolver o bom-senso de quem não se afoga nas emoções sofridas, de quem analisa, revisa, busca novas pistas e soluções. E de quem se permite chorar, mas não se afoga nas lágrimas.

2. ABANDONAR AS CERTEZAS

Falei até agora do fracasso dos sonhos e projetos não-realizados. Há ainda outro contexto para a experiência do malogro. Trata-se das realidades antes firmes e que pelas mais diversas razões foram abaladas.

A geração de religiosos(as) que está nos anos finais da segunda idade passou por uma experiência histórica desse tipo. A sua vivência infantil de Igreja, a formação para a Vida Religiosa recebida em sua juventude, as práticas de vida comunitária e de ação pastoral que Ihes foram transmitidas, a catequese e a teologia que ilustraram sua fé juvenil foram realidades que nos seus tempos pareciam definitivas. Entretanto, os ventos renovadores do Vaticano II e toda a busca de adaptação da Igreja. especialmente da Vida Consagrada, aos tempos atuais e às necessidades do homem de agora sopraram aquilo tudo, antes tão certo e duradouro, como folhas mortas.

Grande parte das pessoas consagradas e dos Institutos passaram pela renovação eclesial com a gratificante sensação primaveril dos brotos e botões de flores que nascem com viço. Para muitos, foi maravilhoso viver e experimentar todo o complexo processo de atualização da Vida Religiosa.
Contudo, houve quem sentisse o frio inverno. Desarvorados, viram a degradação e a perda de tudo o que para eles dava sentido ao existir na consagração. Infelizmente ainda presenciamos gente fazendo força para recuperar o ultrapassado, para retornar à antiga forma de ser religiosos(as). Seus olhos estão mais para o fracasso, para a perda e para o abandono das antigas garantias e seguranças, tanto em termos doutrinais como nas práticas da vida. Isso é fruto de não saber ir adiante, de não conseguir lidar com a frustração e o fracasso como momentos de descoberta do novo.

Esta geração traz consigo a responsabilidade de percorrer os caminhos renovados ou de retornar para as velhas trilhas. Estas últimas são aparentemente mais seguras. Já foram experimentadas antes e ficou comprovado que conduziam para onde se desejava chegar. 0 problema é que "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (Gaudium et Spes). Os discípulos de Cristo querem chegar ao jeito humano de ser hoje, não mais isolar-se na torre de marfim, alheios à vida que passa agora por eles.

3. EXORCIZAR 0 DEMÔNIO MERIDIANO

A inventividade dos monges do deserto encontrou um nome significativo para o desânimo e o desencanto que batem à porta da segunda idade. 0 "demônio do meio-dia'' ataca aqueles e aquelas que já estão, faz uns bons anos, nas rotinas da Vida Consagrada.

Quando já se foram os entusiasmos da juventude, começa a pesar a secura dos dias que se sucedem sem nada de novo e se faz cheia de tédio a vida. É a crise específica da segunda idade. 0 ramerrão cotidiano é então sublinhado pela frustração resultante do balanço que se faz da existência. 0 confronto dos ideais e projetos da juventude com aquilo que se consegue de fato viver pode transformar a idade madura em uma aridez de deserto...

João Cassiano, monge teólogo do século IV, descreveu a tentação do demônio meridiano: "Quando este demônio se apodera da infortunada alma de um monde, inspira-Ihe o horror de seu ambiente, faz com que ele perca o gosto pela sua cela, inspira o desprezo, a desestima por seus irmãos, tendo-os por negligentes ou pouco espirituais. Torna-o mole e preguiçoso para todos os trabalhos do mosteiro. Não Ihe permite permanecer em sua cela nem aplicar-se à leitura". Esse demônio acena com outros cestos para o religioso ou religiosa de hoje, pois agora o estilo . de vida ativa e os espaços de atuação são diferentes. Mas, em última análise, são sempre o desencanto, a perda de sentido para a vida, a impressão de que nada vale a pena, a insatisfação que leva à passividade . ou, pior, à desistência, as queixas e críticas por tudo e por nada. Cassiano já retratava há tantos séculos aquilo que agora foi denominado '`vazio existencial" pelo loterapeuta Viktor Frankl.

Surgem as seduções de busca de compensações, de privilégios, de distrações constantes, de aparentes e falsos motivos pra turismo disfarçados de busca de estudos ou de aproveitamento espiritual. Outros cultuam ,o amargor da alma, a intrica e a murmuração. E quase todos tendem a lançar a culpa por seu mal-estar em terceiros, nos coirmãos, no Instituto, na Igreja, nos superiores e em quantos bodes expiatórios estejam disponíveis.

Só é possível exorcizar esse demônio interior do meio-dia da vida quando admitimos que ele está dentro de nós mesmos. É preciso que o religioso enfrente seu mal-estar interior com sinceridade e coragem, não fuja de si mesmo para distrações e desculpas ilusórias.

Há recursos que podem ajudar muito. Em vez de fechar-se em suas amarguras e desilusões, a ajuda fraterna do diálogo pessoal e comunitário, do confronto com um diretor de espírito, ou, quando for o caso, um acompanhamento psicológico, podem ajudar a encontrar o sentido para a travessia do deserto, para a superação das tentações de volta para o Egito, de revolta contra Javé ou da construção de um bezerro de ouro.

E. de modo central e decisivo, o cultivo da oração, da meditação, da escuta da Palavra é o caminho para reencontrar o sentido da vida, o entusiasmo, não agora a vibração juvenil diante de sonhos fantasiosos de grandes êxitos, mas a constância da carda pesada das rotinas que constroem a solidez da vida. Só quando colocamos nossas inquietações diante do Pai que nos chamou, conseguimos as respostas que nos esclarecem e redespertam a coragem de vivenciar a consagração, pois é Ele doem justifica as decisões de entrega total de nós mesmos que foram tomadas no princípio e que agora nos conduzem.

V. CONCLUINDO

Nos, cristãos, lidamos diariamente com o fracasso da cruz e com a Ressurreição. A fé não pode ser uma coberta que encobre e disfarça, mas um sentido que conforta, que transforma a morte em Vida.

Viver a segunda idade da Vida Religiosa é uma aventura, como aventura é viver! Daí se descortina um panorama novo, apenas entrevisto em sonhos na juventude, apara transformado em realidade. A plenitude da adultez significa a plena responsabilidade consciente pelos passos dados nas rotas da existência. Já não cabem as desculpas da inexperiência, nem a ingenuidade justifica mais as escolhas que fazemos. Adora é a hora de você fazer acontecer aquilo a que se propôs nos projetos primaveris.

Viver a secunda idade da Vida Religiosa é também saber conviver com o peso dos encargos e das rotinas. A dor, o desgaste, a doença e o cansaço são os frequentes companheiros de estrada. A frustração dos sonhos esfumados aí está, marcando os limites. Mas é para não ter medo dos novos espaços e roteiros.

Ainda podem e devem ser abertas novas portas, nestes nossos tempos que vão mudando tão depressa, tanto no que se refere às competências quanto aos tipos de atividades. Foi falado acima dos falsos motivos para a busca de estudo, como uma fuga ao fastio do demônio meridiano. Totalmente outra coisa, e esta muito vital, é o empenho constante de atualização, o cuidado com o estudo, o não se contentar com a bagagem adquirida no passado, sabendo que hoje, mais do que nunca, o tempo passa depressa e os conhecimentos e as práticas do fazer também envelhecem.

***

Não é aqui o lugar para uma filosofia ou teologia do sofrimento. Ficam apenas um lembrete e um aceno.

0 lembrete é a respeito da necessidade de, de vez em quando, parar e pensar sobre a questão fundamental: ``Que sentido tenho encontrado para as dores e as doenças, as desilusões e os fracassos que pontilham minha vida? '' O aceno é para o pensamento de Paulo, o apóstolo, um homem que teve a existência marcada por aquilo que ele chamava tribulação.

Depois de lembrar a grandeza de sua missão apostólica, Paulo expressa a consciência de que trazia "esse tesouro guardado em vasos de barro". a fragilidade humana. E continua: "Em tudo somos atribulados, mas não esmagados, perplexos, mas não desanimados, perseguidos, mas não desamparados, abatidos, mas não destruídos. Trazemos sempre no nosso corpo os traços da morte de Jesus, pra que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo" (2Cor 4,7-I I). Nos textos paulinos, "tribulação" tem o sentido dinâmico da luta, caminho de realização do difícil itinerário da História da Salvação. Esta não acontece no percorrer de uma rota triunfal, mas pela cruz, caminho necessário para a ressurreição.

Vale a pena reler todo o contexto dessa passagem, em que Paulo dá as razões pelas quais ele consegue superar todos os sofrimentos que o atribularam: "... sabendo que aquele que ressuscitou Jesus, também com ele nos há de ressuscitar e nos fará aparecer diante dele convosco... Por isso não desfalecemos. Ainda que em nós se destrua o homem exterior, 44 o interior renova-se diariamente. Porque a nossa leve e momentânea tribulação prepara-nos para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória" (2Cor 4,14-17).

Foi em Jesus Cristo que Paulo conseguiu descobrir o valor da cruz: "Despojou-se de si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens, tido pelo aspecto como homem, humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte e morte de cruz. Por isso é que Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo nome" (F1 2,7-10).

Sem dúvida, a resposta de Deus para os questionamentos humanos sobre a dor e o sofrimento é a encarnação do Verbo. Esta é uma resposta que pode e deve estar ao alcance de quem se propõe seguir de perto a Jesus Cristo.

ORAÇÃO
Alexandre Pronzato

Senhor, aconteceu-me ler certas orações
que eram para pedir-Ihe o "aprender a envelhecer".
Mas é muito pouco pedir-Ihe o aprender a envelhecer.
Eu não peço isso. Não quero molestá-lo por tão pouco.
Peço-lhe, isso sim, não envelhecer.
Mas não me entenda mal, Senhor!
Possivelmente desejaria cheirar aos setenta anos e mais.
Mas sem tornar-me velho.
Não me diga que isso é impossível, por favor.
Não Ihe peço não envelhecer de maneira absoluta.
Entre outras coisas, penso que o permanecer jovens
seria a forma mais segura de fidelidade ao dom da vida.
Assim, pois, Senhor, não quero envelhecer.
E espero seu apoio para esta petição um pouco atrevida.
Faça com que eu seja de meu tempo, e não de minha idade.
Que não me prenda doentiamente às idéias.
como um avarento a seu dinheiro.
E sim, que eu controle sua validade,
e sobretudo me assegure constantemente de sua convertibilidade.
Faça-me olhar com simpatia o que fazem os demais,
Principalmente se tentam algo em que eu não tenha pensado nunca.
Que eu saiba compreender mais que julgar.
Apreciar mais que condenar.
Animar mais que desconfiar.
Faça-me compreender que é importante o que faço hoje,
não o que fiz há dez anos.
Os demais têm direito de receber de mim o que sou,
não o que fui.
Que nunca eu me faça personagem,
e sim que me sinta sempre em dívida comigo e com os outros.
Ensine-me a dizer, a repetir, a afirmar com convicção:
"Não sei", "ainda tenho de aprender isso", "sou um principiante" na vida,
porque a vida começa sempre de novo, e é diferente a cada dia.
Não, não posso envelhecer.
0 Senhor "Permite que eu acerte meu relógio com a hora presente?"