"Concluí que quase todo evangelho, se não
fala
diretamente do idoso, fala da sua situação"
Sou idosa. Tenho convivência com vários
idosos e levo o Sacramento da Eucaristia a alguns idosos doentes.
Fico impressionada com tanto sofrimento. Cada um a seu modo,
uns mais assistidos, outros menos, alguns cercados de carinho,
outros não. Doenças, dores, deficiências,
limitações, mágoas. Apesar disto é
difícil encontrar algum que não tenha apego
à vida, ou não deseje prolonga-la, com todo
peso que suporta.
Tempos atrás quis dar-lhes um apoio espiritual mais
forte, uma palavra extraída do evangelho, um gesto
de conforto, qualquer fato ou sinal que brotasse da pessoa
do próprio Jesus. Procurei em minha memória,
não achei. Folheei os evangelhos, só encontrei
a narração de Lucas sobre Zacarias, Isabel,
Simeão e Ana. Mas Jesus era criança, os trechos
referiam-se a ele, mas não tiveram a sua participação.
Todas as referencias aos "anciãos" eram negativas.
Perguntei a algumas pessoas e ninguém tinha nada a
acrescentar.
Fiquei desapontada. Jesus morreu jovem, seus preferidos não
eram idosos, nada consta dos evangelhos um encontro, uma palavra
de conforto, um olhar, uma referência que sirva de ânimo
a uma classe tão sofrida, tão aviltada, tão
desprezada!
Omissão do próprio Jesus ou dos evangelistas?
Será porque o Espírito santo não pensou
em inspirar os evangelistas a falarem uma palavra que servisse
de conforto a estes servos sofredores?
Pessoalmente, tirei um proveito desta reflexão: consolar-me
das minhas constantes e enormes omissões. Quis ver
como procedeu São Bento. Em sua Regra Monástica,
ele ocupar-se dos mais velhos em vários capítulos.
Esta constatação, porém, não preencheu
a lacuna do silencio de Jesus. Continuei frustrada.
No final de 1999 soube que João Paulo II havia escrito
uma "Carta aos Anciãos". Recebi a noticia
com indizível alegria, e li o documento sentindo-me
destinatária direta do seu conteúdo:
"Meu pensamento dirige-se com afeto a vós, caríssimos
anciãos de qualquer língua e cultura. Escrevo-vos
esta carta no ano em que a Organização das Nações
Unidas quis oportunamente dedicar aos anciãos, para
chamar atenção da sociedade inteira para a situação
daquele que, pelo peso da idade, deve com freqüência
enfrentar problemas numerosos e difíceis". As
situações nele contidas, proveniente de diversas
fases do cristianismo, desde os seus primórdios, sugerem
que, mesmo sem ter sido registrado pelos evangelistas, o amor
e o cuidado com ao idosos foram vividos pelo Mestre e continuado
por seus seguidores, no correr dos tempos. Gostaria de ver
esta carta anexada a todas as edições dos evangelhos.
As Lições do Evangelho:
Dia de Santo Agostinho, 28 de Agosto de 2002. Estou em casa
de meu irmão, fazendo companhia à minha cunhada,
enquanto ele recupera-se de uma cirurgia. Ambos chegados aos
80 anos. No Ofício das Leituras sou atraída
pelas palavras do grande santo daquele dia. "...vi a
Luz imutável...Diria muito se afirmasse que era apenas
uma luz muito, muito mais brilhante do que a comum, ou tão
intensa que penetrava todas as coisas... Tarde te amei...".
À hora do café, sentei-me diante do casal. Ele,
convalescente, frágil, cabeça e moas tremulas
devido a um problema neurológico comum na família
de minha mãe. Trôpego, carregando uma bolsa com
urina, ligada a uma sonda, colocadas durante a cirurgia, dependendo
do filho caçula para várias coisas. Ela, sofrendo
do mal de Alzheimer, não compreende a situação.
Ambos estão usando fralda descartável.
Vi-me diante de duas crianças dependentes, indefesas,
carentes. Compreendi então que as palavras do Mestre
às crianças aplicam-se também aos velhos.
"Deixai vir a mim as criancinhas". Minha cunhada
sente-se fortemente atraída e participa com atenção
das missas, tanto na Igreja como na TV. Nossas Igrejas e todos
os atos religiosos estão cheios de gente de cabelos
brancos. "Se não vos tornardes como crianças...".
O idoso não precisa tornar-se, ele é uma criança
. Só que, muitas vezes, é uma criança
difícil, e como diz minha sobrinha: "Nem rosadinha,
nem cheirosinha", por isto mesmo quase sempre indesejada,
malquista, excluída... como os prediletos de Jesus.
Jesus curou doentes. Se a idade não é uma doença,
dificilmente encontra-se um velho que não sinta dores,
pelo desgaste natural do organismo. Você já reparou
nos nossos ônibus, a figura que representa o idoso,
reservando-lhe um lugar? Jesus curou coxos, cegos, surdos,
lunáticos (dementes), paralíticos; teve predileção
pelos pobres e abandonados, os sem-salários, os que
têm que dividir o seu salário-mínimo,
como muitos dos nossos idosos.
Conclui que quase todo o evangelho, se não fala diretamente
do idoso, fala de sua situação. Até mesmo
duas das sete palavras de Jesus na Cruz aplicam-se a ele.
Quantos deles, em sua insanidade, apropriam-se de objetos
alheios! "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem
o que fazem..." Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso".
Creio que Jesus confiou no idoso. Deixou que ele mesmo alcance,
por sua vivência e seu sofrimento, e com o auxilio da
Sua Graça, a sabedoria e a humildade, virtudes que
lhe possibilitarão encontrar-se na Palavra e com a
Palavra.
Esta Palavra é o próprio Cristo, que se deixou
para nós no evangelho e na Eucaristia.
Por: Célia Maria/Leiga Consagrada
e oblata do Mosteiro N. Sra. Das Graças - Belo Horizonte/MG
Fonte: Jornal Opinião
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