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Ano 2003

Fraternidade e
as Pessoas Idosas

Dignidade, Vida e Esperança
 
Cartaz
 
 
 
Campanha da Fraternidade 2003
Textos Complementares
 
Jesus e o Idoso


"Concluí que quase todo evangelho, se não fala
diretamente do idoso, fala da sua situação"

Sou idosa. Tenho convivência com vários idosos e levo o Sacramento da Eucaristia a alguns idosos doentes. Fico impressionada com tanto sofrimento. Cada um a seu modo, uns mais assistidos, outros menos, alguns cercados de carinho, outros não. Doenças, dores, deficiências, limitações, mágoas. Apesar disto é difícil encontrar algum que não tenha apego à vida, ou não deseje prolonga-la, com todo peso que suporta.

Tempos atrás quis dar-lhes um apoio espiritual mais forte, uma palavra extraída do evangelho, um gesto de conforto, qualquer fato ou sinal que brotasse da pessoa do próprio Jesus. Procurei em minha memória, não achei. Folheei os evangelhos, só encontrei a narração de Lucas sobre Zacarias, Isabel, Simeão e Ana. Mas Jesus era criança, os trechos referiam-se a ele, mas não tiveram a sua participação. Todas as referencias aos "anciãos" eram negativas. Perguntei a algumas pessoas e ninguém tinha nada a acrescentar.
Fiquei desapontada. Jesus morreu jovem, seus preferidos não eram idosos, nada consta dos evangelhos um encontro, uma palavra de conforto, um olhar, uma referência que sirva de ânimo a uma classe tão sofrida, tão aviltada, tão desprezada!

Omissão do próprio Jesus ou dos evangelistas? Será porque o Espírito santo não pensou em inspirar os evangelistas a falarem uma palavra que servisse de conforto a estes servos sofredores?

Pessoalmente, tirei um proveito desta reflexão: consolar-me das minhas constantes e enormes omissões. Quis ver como procedeu São Bento. Em sua Regra Monástica, ele ocupar-se dos mais velhos em vários capítulos.
Esta constatação, porém, não preencheu a lacuna do silencio de Jesus. Continuei frustrada.

No final de 1999 soube que João Paulo II havia escrito uma "Carta aos Anciãos". Recebi a noticia com indizível alegria, e li o documento sentindo-me destinatária direta do seu conteúdo:

"Meu pensamento dirige-se com afeto a vós, caríssimos anciãos de qualquer língua e cultura. Escrevo-vos esta carta no ano em que a Organização das Nações Unidas quis oportunamente dedicar aos anciãos, para chamar atenção da sociedade inteira para a situação daquele que, pelo peso da idade, deve com freqüência enfrentar problemas numerosos e difíceis". As situações nele contidas, proveniente de diversas fases do cristianismo, desde os seus primórdios, sugerem que, mesmo sem ter sido registrado pelos evangelistas, o amor e o cuidado com ao idosos foram vividos pelo Mestre e continuado por seus seguidores, no correr dos tempos. Gostaria de ver esta carta anexada a todas as edições dos evangelhos.

As Lições do Evangelho:

Dia de Santo Agostinho, 28 de Agosto de 2002. Estou em casa de meu irmão, fazendo companhia à minha cunhada, enquanto ele recupera-se de uma cirurgia. Ambos chegados aos 80 anos. No Ofício das Leituras sou atraída pelas palavras do grande santo daquele dia. "...vi a Luz imutável...Diria muito se afirmasse que era apenas uma luz muito, muito mais brilhante do que a comum, ou tão intensa que penetrava todas as coisas... Tarde te amei...".
À hora do café, sentei-me diante do casal. Ele, convalescente, frágil, cabeça e moas tremulas devido a um problema neurológico comum na família de minha mãe. Trôpego, carregando uma bolsa com urina, ligada a uma sonda, colocadas durante a cirurgia, dependendo do filho caçula para várias coisas. Ela, sofrendo do mal de Alzheimer, não compreende a situação. Ambos estão usando fralda descartável.

Vi-me diante de duas crianças dependentes, indefesas, carentes. Compreendi então que as palavras do Mestre às crianças aplicam-se também aos velhos. "Deixai vir a mim as criancinhas". Minha cunhada sente-se fortemente atraída e participa com atenção das missas, tanto na Igreja como na TV. Nossas Igrejas e todos os atos religiosos estão cheios de gente de cabelos brancos. "Se não vos tornardes como crianças...". O idoso não precisa tornar-se, ele é uma criança . Só que, muitas vezes, é uma criança difícil, e como diz minha sobrinha: "Nem rosadinha, nem cheirosinha", por isto mesmo quase sempre indesejada, malquista, excluída... como os prediletos de Jesus.
Jesus curou doentes. Se a idade não é uma doença, dificilmente encontra-se um velho que não sinta dores, pelo desgaste natural do organismo. Você já reparou nos nossos ônibus, a figura que representa o idoso, reservando-lhe um lugar? Jesus curou coxos, cegos, surdos, lunáticos (dementes), paralíticos; teve predileção pelos pobres e abandonados, os sem-salários, os que têm que dividir o seu salário-mínimo, como muitos dos nossos idosos.
Conclui que quase todo o evangelho, se não fala diretamente do idoso, fala de sua situação. Até mesmo duas das sete palavras de Jesus na Cruz aplicam-se a ele. Quantos deles, em sua insanidade, apropriam-se de objetos alheios! "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem..." Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso".

Creio que Jesus confiou no idoso. Deixou que ele mesmo alcance, por sua vivência e seu sofrimento, e com o auxilio da Sua Graça, a sabedoria e a humildade, virtudes que lhe possibilitarão encontrar-se na Palavra e com a Palavra.

Esta Palavra é o próprio Cristo, que se deixou para nós no evangelho e na Eucaristia.

Por: Célia Maria/Leiga Consagrada e oblata do Mosteiro N. Sra. Das Graças - Belo Horizonte/MG
Fonte: Jornal Opinião