Dom Raymundo Damasceno Assis
Secretário-Geral da CNBB
No Brasil, o tempo de Quaresma, que nos prepara
para a Páscoa de Cristo e a nossa páscoa, está
ligado profundamente à Campanha da Fraternidade, que
este ano tem como tema Fraternidade e Pessoas Idosas, e como
lema Vida, Dignidade e Esperança.
Segundo o último censo do IBGE, em 2000, o número
de idosos atingiu cerca de 8,6% da população,
o que eqüivale a 15 milhões de pessoas. Para os
próximos vinte anos, a previsão é de
que esse número será de 15% do total da população.
É uma estatística que não pode ser mais
ignorada.
O aumento da expectativa de vida do brasileiro se deve, entre
outros fatores, ao progresso da medicina, às melhores
condições sociais e econômicas e - porque
não dizer - ao rígido controle demográfico
e a uma mentalidade anti-vida, que têm levado à
diminuição da taxa de fecundidade nos últimos
anos. Daí, uma expressão usada para definir
o Brasil de hoje: "um país jovem de cabelos brancos".
Era de se desejar que a longevidade fosse acompanhada de melhor
qualidade de vida para os que alcançam idade mais avançada.
No Brasil, porém, enquanto a média de vida é
de cerca de 68 anos, a média de idade com qualidade
de vida é de mais ou menos 60 anos.
Além disso, o abandono de nossos idosos se evidencia
na precariedade dos serviços e programas sociais e
de saúde nessa faixa etária, particularmente
para os de baixa renda.
No modelo econômico neoliberal, que supervaloriza o
lucro, a produtividade, o consumo, a eficiência, o jovem
é supervalorizado, enquanto o idoso é considerado
freqüentemente um inútil, um peso-morto para a
família, a sociedade, e para o Estado um improdutivo.
Daí, o desprezo por ele e o desrespeito à sua
dignidade.
A Campanha da Fraternidade, neste período de Quaresma,
tempo de conversão, nos convida a descobrir, no rosto
do nosso irmão e irmã envelhecido pelo tempo
e pelo trabalho, o rosto de Jesus Cristo, a beleza de Deus.
A situação do idoso entre nós é
um desafio para todos e cada um individualmente. Esta situação
exige políticas adequadas às novas exigências
geradas pelo crescimento do envelhecimento, exige novas formas
de pensar e novos critérios de análise da realidade.
Papel importante na resposta a essas exigências cabe
ao Conselho Nacional dos Idosos, que antes de trabalhar a
partir da assistência social, deve ser um instrumento
de transformação, que gere novas estruturas
e formas de participação que possibilitem aos
idosos o exercício da cidadania e a construção
de um novo Brasil que seja também para as pessoas idosas.
Alguém dizia com certa ironia: "No Brasil, os
anciãos de amanhã serão os meninos de
rua hoje".
A Quaresma pede de nós renovação pessoal
e comunitária, a fim de "construirmos uma civilização
plenamente humana, onde se respeitem, se amem e se valorizem
os anciãos, para que estes se sintam, apesar da diminuição
das forças, parte viva da sociedade".
O idoso se sentirá parte viva da sociedade se for acolhido,
de preferência e se possível, naquele ambiente
onde ele é "de casa", entre os parentes conhecidos
e amigos e pela sociedade, onde pode prestar algum serviço
voluntário, ao invés de ser jogado num asilo,
onde com raras exceções poderá viver
os dias que lhe restam com dignidade e na esperança
da vida em plenitude. (Cf. Carta aos Anciãos, João
Paulo II).
Que a Campanha da Fraternidade deste ano nos ajude a sermos
mensageiros de vida, dignidade, felicidade e esperança
para todas as pessoas idosas do nosso Brasil.
Brasília, 22 de janeiro de 2003.
Dom Raymundo Damasceno Assis
Secretário-Geral da CNBB
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