Ano 2001

Vida Sim,
Drogas Não!
 
 
 
 
Campanha da Fraternidade 2001
Subsídio sobre o tema das Drogas
Segue a intervenção de D. Irineu Danelon, bispo de Lins - SP, no Segundo Seminário de preparação para a CF 2001, apresentando a base teológica que orienta a Pastoral da Sobriedade. Ela pode ajudar os compositores na elaboração das letras.

O amor gratuito do Pai desperta a solidariedade com o mundo e com a humanidade, fazendo dos excluídos os preferidos. O testemunho de Jesus, que veio para salvar quem está perdido, impulsiona na direção daqueles que se encontram em situação periclitante. A efusão do Divino Espírito Santo, que faz brotar rios de água viva, dá força e graça para transformar ossos ressequidos num exército em ordem de batalha e concede, a cada momento, o que mais convém.

Motivados pela práxis de Jesus, cremos firmemente que, no Reino de Deus, o maior é o que serve e lava os pés. Enviados por Deus, os agentes da Pastoral de prevenção e Recuperação em Dependência Química procuram ser abertos e cordiais, prontos a dar o primeiro passo e acolher, com bondade, respeito e paciência. Tendo presente o mistério da encarnação, se visa sempre a integração fé-vida. Baseados nas atitudes de Jesus, procura-se valorizar aquilo de que os dependentes são mais capazes do que outros: a experiência da própria vida. Procura-se dar voz e vez para que se expressem. Tendo presente que Jesus é o caminho, procura-se proporcionar aos dependentes a descoberta do sentido da vida e a unificação das suas múltiplas experiências em torno de um novo projeto de vida, alicerçado em novos valores. Procura-se não dramatizar os fatos. Na medida em que os dependentes vão se abrindo à comunhão com os outros, a história, a natureza em com Deus, vão experimentando a força da comunhão que salva. Da experiência religiosa, se passa ao anúncio do Cristo vivo.

Da práxis pedagógica da Igreja, embasada em valores teologais, destaca-se: a) a capacidade de passar dos sinais vistos para a realidade significada; b) desperta-se o hábito de criar uma espécie de conflito interior entre o imediato da experiência e seu sentido mais profundo; c) a necessidade de caminhar para as causas últimas; d) cultiva-se a disponibilidade, a calma, o silêncio, a escuta, a descoberta dos valores escondidos; e) a capacidade de lutar com um coração reconciliador; f) a recusa de unir a realização pessoal às coisas que se possui ou a uma salvação egoísta; g) a vitória do mal com o bem, sem revanches, violências ou ressentimentos; h) tem-se presente que, por melhor que seja alguém, jamais conseguirá ser tão bom e eficiente como todos unidos; i) que a vida deve ser partilhada no seu todo e não apenas nas sobras; j) que é melhor prevenir do que remediar; k) que o trabalho de ser direcionado à dignidade das pessoas e não apenas à satisfação de necessidades imediatas; l) que Jesus veio para todos terem vida e vida em abundância; m) o cultivo de uma verdadeira paixão pela vida, como Teresa de Calcutá (a vida é uma oportunidade, agarre-a; a vida é uma beleza, admire-a; a vida é uma ventura, saboreie-a; a vida é um sonho, faça dela realidade; a vida é um desafio, enfrente-a; a vida é um dever, cumpra-o; a vida é um jogo jogue-o; a vida é preciosa, cuide bem dela; a vida é uma riqueza, conserve-a; a vida é amor, desfrute-a; a vida é um mistério, penetre-o; a vida é promessa, cumpra-a; a vida é tristeza, supere-a; a vida é um hino, cante-o; a vida é um combate, aceite-o; a vida é uma tragédia, enfrente-a; a vida é uma aventura, ouse-a; a vida é felicidade, mereça-a; a vida é o maior dom, defenda-o); n) o testemunho do Bom Pastor, que não foge quando o lobo se aproxima. "Quem tem medo de morrer, morre de medo".

D. Irineu chamou a atenção para o conteúdo da exortação apostólica pós-sinodal "Ecclesia in America", referente ao comércio e o consumo de droga, sobretudo os números 24 e 61:

"O comércio, com o conseqüente consumo de substâncias entorpecentes, constitui uma séria ameaça para as estruturas sociais das nações americanas. Isto contribui para a criminalidade e a violência, para a destruição da vida familiar e da vida física e psicológica de muitos indivíduos e comunidades, sobretudo dos jovens. Além disso, corrói a dimensão ética do trabalho, favorecendo o aumento de pessoas reclusas em cárceres, numa palavra, o envilecimento da pessoa criada à imagem de Deus" (EA, 21).

"Seja estimulada também a obra dos que se esforçam por recuperar os que se drogam, dedicando uma atenção pastoral às vítimas da toxicodependência: é fundamental oferecer o justo 'sentido da vida' às novas gerações que, se este vier a faltar, terminam freqüentemente caindo na espiral perversa dos entorpecentes. Este trabalho de reabilitação social também pode constituir um verdadeiro e próprio empenho de evangelização" (EA, 61).

Neste Seminário foram dadas pistas para o AGIR (para o texto-base):

Mostrar o sentido da vida: a vida como caminho da esperança; apresentar tudo numa perspectiva de alegria e de solidariedade; decodificar a solidariedade; apresentar uma visão teológica sobre o prazer centrado em princípios e valores universais e verdadeiros; a questão da mística: o problema não se resolve só com profissionalismo, mas também com amor, dedicação, conversão e verdadeira fraternidade; o amor exigente; analisar a questão do sentido da vida, a temperança, a sobriedade, a solidariedade, o ser e o ter, a questão da esperança, a dignidade das pessoas; apresentar Jesus como o profeta da alegria (começo dos sinóticos); apresentar a doutrina da Igreja sobre o assunto: mostrar em que consiste a verdadeira felicidade.

VIDA SIM, DROGAS NÃO

(Alguns trechos do artigo de D. Raimundo Damasceno Assis, Secretário-Geral da CNBB, para o texto-base)

O Problema das drogas em toda a sua extensão, isto é, da produção ao consumo, é uma corrente de males de caráter pessoal e estrutural. É verdadeiro pecado que atenta contra a vida e a dignidade humana.

Deus fez boas todas as coisas e criou o homem à sua imagem e semelhança, livre e senhor responsável de toda a criação. Deus conferiu ao homem o domínio sobre a terra, mas impôs-lhe limites no uso da natureza. O homem não é, desta forma, o senhor absoluto da criação (Gn 1-3).

O pecado cindiu a amizade com Deus e introduziu o desequilíbrio no inteiro do próprio homem. Em conseqüência, o homem rompeu a solidariedade com o próximo e destruiu a harmonia com a natureza: é o que ocorre, por exemplo, quando ele faz mau uso das drogas...

No mundo atual, as drogas encontram facilidade generalizada de circulação. Estão presentes por toda parte: nas sociedades subdesenvolvidas - em geral estruturalmente injustas e geradoras de exclusão social - e nas chamadas sociedades industrializadas, dominadas por mentalidade materialista e hedonista e caracterizadas por exarcerbado consumismo, que costuma levar as pessoas às frustrações e estresse, freqüentemente enfrentados com o uso de drogas, em atitude de fuga e compensação...

O tráfico de drogas quase nunca prescinde da violência. Se ele não se realiza por meio da corrupção ou se não é acobertado por legislação que o protege, recorre inevitavelmente à violência. Corrupção e violência podem chegar mesmo a invadir todos os segmentos sociais de uma nação, ameaçando a estabilidade de suas instituições democráticas e a própria soberania...

A Campanha da Fraternidade de 2001, ao colocar em pauta a questão das drogas, será uma interpelação da consciência pessoal e coletiva e uma pelo à conversão, para que, diante do desafio dessa expressão da anticultura da morte, respondamos com a defesa e a promoção da vida, pois a Igreja tem a convicção de que a vida é o primeiro de todos os bens, em consonância com os ensinamentos e a missão de Jesus, que afirma: "Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10).

Drogas são geradoras de morte. Estão, por conseguinte, em desacordo com o projeto de Deus para a humanidade.

Vidas sim, drogas não!