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Campanha da Fraternidade de 2001 -Vida sim, drogas não-
discute esse grave problema a partir da contradição
entre nosso sonho de vida plena, prazerosa, harmoniosa, e
a dura realidade cotidiana marcada pela competição
de todos contra todos. Ao recorrer às drogas (aí
considerados todos os psicotrópicos, inclusive o tabaco
e o álcool) para aliviar as tensões do cotidiano,
porém, muita gente transforma seus sonhos em pesadelo.
Ao provocarem dependência, as drogas tornam-se uma doença
da sociedade atual, atingindo principalmente indivíduos
menos protegidos ou em condições psicológicas
fragilizadas. Na medida em que aumenta o estresse cotidiano
nessa selva de pedra, aumenta a demanda por uma válvula
de escape, ainda que ilusório. Aí entram em
jogo as forças do mercado oferecendo diversos tipos
de drogas, seja por meios lícitos -farmácias,
bares e supermercados- seja pelo tráfico clandestino.
Mesmo sendo todos vítimas diretas ou indiretas do sistema
das drogas ("acidentes" de trânsito envolvendo
motoristas alcoolizados, doenças causadas pelo fumo,
roubos e assassinatos, ação corruptora do narcotráfico
em esferas do poder público), não temos conseguido
reagir adequadamente e dar-lhe um combate eficaz. Por que?
Inspirada no modelo dos EUA, a atual política
visa eliminar (ou, pelo menos, reduzir) o consumo de drogas
atuando a partir de dois pólos: a repressão
policial à produção e ao tráfico,
e a dissuasão ao consumo por meio de campanhas que
criem uma atmosfera cultural refratária ao seu uso.
Não se pode negar o empenho do Governo brasileiro nessa
árdua tarefa: a Secretaria Nacional Anti-Drogas -SENAD-
em colaboração com a Polícia Federal
não só combate o narcotráfico como produz
campanhas de notável qualidade técnica e poder
de persuasão. Sua eficácia, porém, tem-se
revelado pequena, não reduzindo o número de
usuários. Quando o remédio não produz
o efeito desejado, cabe colocar em questão o diagnóstico.
É o que proponho aqui: rever a própria definição
dos termos em que foi colocado o problema.
As drogas têm sido tratadas como uma
"praga" que põe em risco a sociedade, assim
como a "erva de passarinho" que, não sendo
arrancada a tempo, suga a seiva até matar a árvore
onde germina. A imagem tem inegável valor descritivo,
mas induz ao erro fatal de considerar o sistema das drogas
como um mal externo à sociedade. A lógica subjacente
a essa concepção perpassa tanto a política
anti-drogas, que define o narcotráfico como inimigo
a ser destruído (convém lembrar que o SENAD
está subordinado ao Gabinete de Segurança Institucional),
quanto o imaginário religioso e de senso-comum, onde
as drogas são demonizadas e seu combate assume a forma
maniqueísta da eterna luta entre o bem contra o mal.
Essa mesma lógica orienta as campanhas
que pintam o mundo das drogas como um quadro tão horrível,
que não deixam ao público-alvo outra alternativa
senão conformar-se com a sua vida cotidiana. A opção
é radical: ou se está "do lado de cá"
ou "do lado de lá". Mas, onde fica quem não
se conforma com essa realidade de competição
com suas tensões e frustrações? Onde
fica quem alimenta o sonho de um mundo harmonioso, justo,
prazeroso? Ensinam-lhe que o prazer das drogas é ilusório,
mas a experiência de uma realidade sem graça
o impulsiona a buscar o diferente, a optar pelo "lado
de lá" apesar dos seus riscos. Por isso o combate
às drogas tornou-se uma luta sem fim, no qual as duas
forças se opõem mas uma não derrota a
outra. Para sair desse impasse, é preciso rever aquela
concepção e tratar a dependência dos psicotrópicos
como um problema endógeno à sociedade de mercado.
Se convém utilizar uma metáfora,
substituamos a imagem da "praga" pela do câncer
que se desenvolve a partir do próprio organismo vivo.
O sistema das drogas nada tem de externo à sociedade
estabelecida senão sua ilegitimidade. Ele cresce e
se desenvolve conforme as leis do mercado, as mesmas que regem
nossa vida cotidiana. Se há demanda social desse tipo
de mercadoria, por que não haveria capitais interessados
na sua produção, transporte e distribuição?
O sistema das drogas é fruto do mesmo sistema de mercado,
e nele as drogas circulam como qualquer mercadoria diversificando-se
conforme a moda e lançando "modelos" para
cada faixa de poder aquisitivo. Mas quando as drogas quebram
a capacidade de resistência de seus eventuais consumidores
e os transformam em dependentes químicos, elas estão
assinalando que nossa sociedade está doente e pede
socorro.
É imperioso, portanto, reformular
o problema das drogas no mundo de hoje. O primeiro passo é
certamente recusar o diagnóstico simplista de tipo
"mocinho x bandido" e reconhecer nossa ignorância
diante da sua complexidade. Isso permitirá abrir horizontes
para uma política anti-drogas inserida na grande política
de construção da sociedade democrática,
justa e pacífica com que todos sonhamos. Uma política
econômica que torne nossa vida cotidiana gostosa de
ser vivida, sem necessidade de amortecedores nem de estimulantes
químicos. Aceitar esse desafio e criar novos esquemas
de pensamento e ação, é o convite que
nos faz esta Campanha da Fraternidade.
Pedro A. Ribeiro de Oliveira
Sociólogo, Professor na Universidade
Católica de Brasília e Assessor da CNBB
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