| Fraternidade
e Política
POLÍTICA: FORMA EMINENTE DE
CARIDADE
(Tema da Campanha da Fraternidade de 1996)
1. Natureza e objetivos da Campanha da Fraternidade
Criada em dezembro de 1963, a Campanha da Fraternidade é
atividade de evangelização desenvolvida num
determinado tempo (Quaresma), para ajudar os cristãos
e as pessoas de boa vontade a viverem a fraternidade em compromissos
concretos no processo de transformação da sociedade
a partir de um problema especifico que exige a participação
de todos na sua solução. É grande instrumento
para desenvolver o espírito quaresmal de conversão,
renovação interior e ação comunitária
como a verdadeira penitência que Deus quer de nós
em preparação da Páscoa.
Tem como objetivos permanentes: despertar
o espírito comunitário e cristão no povo
de Deus, comprometendo, em particular os cristãos na
busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a
partir da justiça e do amor, exigência central
do Evangelho; renovar a consciência da responsabilidade
de todos pela ação da Igreja na Evangelização,
na promoção humana, em vista de uma sociedade
justa e solidária - todos devem evangelizar e sustentar
a ação evangelizadora e libertadora da Igreja,
daí o destino da coleta final: realização
de projetos de caridade libertadora e manutenção
da ação evangelizadora.
2. Uma Campanha sobre Política
O tema da Campanha da Fraternidade é definido pela
Presidência e Comissão Episcopal de Pastoral
(12 Bispos) da CNBB, em reunião anual nacional da qual
participaram os coordenadores regionais da CF e os assessores
nacionais, a partir de sugestões provindas das comunidades,
paróquias, Dioceses, e Regionais. O tema da Campanha
da Fraternidade de 1996 é Fraternidade e Política.
A escolha tem dupla coincidência feliz: dá continuidade
natural e lógica ao tema da CF de 1995 - os excluídos
- e acontece no ano de eleições municipais em
todo território nacional.
Os objetivos da CF sobre Política são:
Geral:
- contribuir para a formação política
dos cristãos para que exerçam sua cidadania
sendo sujeitos da construção de uma sociedade
justa e solidária.
Específicos:
- ampliar o conceito de política para além de
processos eleitorais;
oferecer elementos para um novo exercício da política
a partir do pobre e do excluído;
- incentivar as pessoas a se tornarem sujeitos da ação
política na promoção do bem comum;
- clarear a ligação da política com o
cotidiano das relações familiares, comunitárias
e eclesiais;
- estimular a militância política e o exercício
de cargos públicos revisando permanentemente a prática
do poder.
3. Eminente forma de caridade
Freqüentemente, a palavra política é empregada
para falar de eleições, partidos, governo. A
idéia que dela se faz, quase sempre, não é
nada positiva. Pela prática de muitos políticos,
marcada pela corrução e por promessas não
cumpridas, a política é tida como "coisa
suja", da qual muitos que esperam ações
de equidade e justiça já se desiludiram.
Política, na verdade, envolve todas
as relações humanas: a convivência familiar,
a participação na escola, na comunidade, nos
sindicatos, associações e todo outro tipo de
organização.
A palavra vem de pólis, termo grego
que significa cidade. Político é o integrante
da cidade. Política é o governo da cidade. Exercer
a cidadania é exercer o direito e o compromisso de
participar na organização e administração
da cidade. Por isso, a política se realiza em tudo
o que se vive: desde a solidariedade na casa, na rua, no bairro
ou na vila, na cidade, até a escolha dos governantes
da sociedade. Daí, do ponto de vista ético ou
dos valores, política é o conjunto de ações
pelas quais mulheres e homens tentam organizar a convivência
em condições de realização do
bem comum. O estudioso francês, Padre. Lebret, a definiu
como a "ciência, a arte e a virtude do bem comum".
Do ponto de vista dos meios ou da organização,
a política é o exercício do poder e a
luta para conquistá-lo. Um dos documentos dos Bispos
do Brasil diz que é uma maneira exigente de viver o
compromisso cristão, a serviço dos outros. O
Papa Paulo VI insistia que ela é uma forma eminente
de viver a caridade. E sabemos bem que só a caridade
salva. A CF sobre os excluídos, com seu lema "ERAS
TU, SENHOR?!" advertia que seremos julgados pela atitude
que tivermos tido com nossos irmãos deixados à
margem da vida. Eles serão nossos juizes e a casa do
julgamento será a caridade.
Assim sendo, todos vivem politicamente e
ninguém vive sem tomar partido. Não existe posição
neutra. Se eu vejo um sujeito alto, forte batendo numa criança
indefesa, não posso dizer que não quero incomodação,
não vou me meter nisso, que não quero tomar
partido. Minha obrigação é defender a
criança ameaçada. Se não o fizer, estou
favorecendo o agressor. Quanto mais gente julgar que a política
é coisa má e se desinteressar dela, mais fácil
para os maus políticos continuarem numa boa.
Em coerência com sua fé e seu
compromisso batismal, o cristão estará presente
na política como sal, como luz, como fermento. Como
sal, deve estar dentro da massa. Sacos de sal, também
de pimenta, ou de outro tipo de tempero no supermercado ou
mesmo ao lado da panela não dão sabor à
comida. Uma dose proporcional ao tamanho da panela é
suficiente para a comida ficar saborosa. Como luz, o cristão
tanto desmascara falcatruas quanto abre novos horizontes.
O texto base da CF, em sua primeira parte,
a partir da realidade, analisa a cultura política introjetada
em nossa vida, conceitua a cidadania como fraternidade política,
constata sinais de esperança na prática política,
descreve a compreensão que se tem do poder, a forma
de acesso a ele e a forma como é exercido. Ajuda também
a refletir sobre a ação política dos
cristãos e como ver a situação da Igreja
no Brasil neste campo.
Na sua segunda parte, o julgar, o subsídio
ressalta a necessidade de o cristão ter consciência
crítica e saber fazer seu discernimento político
a partir da prática de Jesus, que foi de justiça
e solidariedade. Acentua a indispensável relação
entre fé e política, busca critérios
para a missão política da Igreja e indica a
contribuição dos cristãos no processo
político.
Na última parte, pistas para o agir,
o texto distingue os níveis de atuação
da Igreja na política, aponta propostas concretas para
a formação, informação e articulação
no campo da política. Tendo em vista, especificamente,
as eleições municipais de 1996, caracteriza
os diversos tipos de eleitor e de político, destaca
atividades a serem desenvolvidas antes, durante e depois das
eleições, acentuando o necessário acompanhamento
aos cristãos engajados.
4. Justiça e Paz se abraçarão
O lema desta CF sobre Política é Justiça
e Paz se abraçarão. Ele é tirado do Salmo
58,11. Por sua vez, o salmo tem fundamento no profeta Isaías,
para quem justiça e paz são duas características
importantes dos tempos messiânicos. Com elas, para o
profeta, chegam a prosperidade e a estabilidade na ordem social.
O tempo futuro do verbo, abraçarão, aponta para
o grande ideal. Justiça para possibilitar e garantir
a Paz. Justiça e Paz se abraçarão indica
processo dinâmico, um sonho, algo constantemente construído
para tornar realidade o novo Céu e a nova Terra, que
terão sua plenitude na consumação do
Reino, para a qual a política é uma das mediações.
Brasília-DF, 30 de novembro de 1995
Pe. Antonio Valentini Neto
Subsecretário-geral da CNBB
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